Os marcos do desenvolvimento são referências utilizadas para acompanhar a aquisição de habilidades esperadas durante a infância e auxiliam na observação de possíveis alterações relacionadas aos transtornos do neurodesenvolvimento. Estabelecidos a partir de estudos científicos que analisaram de que maneira essas capacidades surgem e evoluem ao longo dos primeiros anos de vida, consideram diferentes áreas do desenvolvimento infantil como movimento, linguagem, comunicação e interação social. Mais do que determinar uma idade exata para cada conquista, esses parâmetros ajudam a compreender a trajetória de cada criança e indicam quando pode ser necessária uma avaliação mais detalhada. O acompanhamento dessas habilidades considera diferentes domínios do desenvolvimento infantil, que evoluem de forma integrada ao longo dos primeiros anos de vida. Entre eles está o desenvolvimento motor, que envolve a aquisição do controle corporal e dos movimentos, além da coordenação motora fina, relacionada ao uso das mãos e à realização de ações mais precisas.
“Estas são habilidades que vão desde sustentar a cabeça, sentar, engatinhar e andar até movimentos mais refinados, como fazer o movimento de pinça, utilizar talheres e desenhar”, descreve o neurologista infantil Guillermo Andrey Ariza Traslaviña, professor do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Outras dimensões incluem a linguagem e a fala, que seguem uma progressão desde os primeiros sons emitidos pelo bebê até a formação de sílabas, palavras e frases; a cognição, que envolve capacidades como atenção, percepção, memória, compreensão e aprendizagem; e os aspectos emocionais e comportamentais, relacionados à interação com o ambiente e com outras pessoas.
Apesar de funcionarem como referências para acompanhar a evolução infantil, os marcos do desenvolvimento não devem ser analisados de forma isolada. Portanto, um atraso pontual nem sempre indica um transtorno do neurodesenvolvimento, pois cada criança tem seu ritmo de aquisição de habilidades. Por isso, a observação longitudinal é fundamental para diferenciar uma variação do desenvolvimento de uma alteração persistente. “É muito difícil, principalmente nos primeiros meses de vida, que um profissional consiga afirmar, em uma única consulta, que um lactente apresenta um transtorno. O mais importante é acompanhar essa criança ao longo do tempo”, orienta o neurologista infantil Guillermo Andrey Ariza Traslaviña. Quando um marco deixa de aparecer de forma consistente ou não há evolução ao longo do tempo, especialmente nos aspectos relacionados à linguagem, comunicação e interação social, é necessário investigar com maior atenção.
Em muitos transtornos do neurodesenvolvimento, os primeiros sinais não estão relacionados a alterações motoras evidentes, mas podem surgir na interação com o ambiente, como menor resposta à voz dos pais, redução da reciprocidade do olhar, ausência ou diminuição do sorriso social, pouca participação nas brincadeiras e atraso na aquisição de sons e palavras. O especialista reforça que a vigilância do desenvolvimento começa desde o nascimento e faz parte da atenção primária. “Nas consultas de puericultura, profissionais avaliam crescimento, alimentação, vacinação e os marcos do desenvolvimento, utilizando a Caderneta de Saúde da Criança como referência para acompanhar esses indicadores e orientar as famílias sobre sinais de alerta”, aponta. Quando essas alterações persistem, a criança pode ser encaminhada para avaliação especializada com profissionais de diferentes áreas.
O desafio é garantir que crianças com sinais de alerta tenham acesso oportuno à avaliação especializada e, principalmente, à reabilitação. O neurologista Guillermo Andrey Ariza Traslaviña destaca que o reconhecimento desses sinais tem ocorrido mais cedo, tanto pelas famílias quanto pelos profissionais da atenção primária. No entanto, o diagnóstico representa apenas o início do cuidado. “O que observamos atualmente é que a maior dificuldade não está necessariamente na percepção dos sinais, mas no tempo até a avaliação por uma equipe especializada e no acesso à reabilitação. Uma rede articulada entre serviços de saúde, escola e família é fundamental para ampliar as oportunidades de desenvolvimento e autonomia da criança”, finaliza.

