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Doença de Parkinson

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Influência de fungos no Parkinson

Escrito por: Elessandra Asevedo

A doença de Parkinson dobrou em prevalência nos últimos 25 anos e as estimativas globais mostram que mais de 8,5 milhões de indivíduos estão vivendo com a enfermidade. A incapacidade e a morte devido à doença também estão aumentando mais rápido em relação a qualquer outro distúrbio neurológico. Os últimos dados, publicados em 2019, mostram 5,8 milhões de vidas marcadas pela incapacidade e 329 mil mortes – com aumento de 81% e 100%, respectivamente, desde 2000. Esse cenário epidemiológico preocupa a saúde pública e é agravado pela falta de cura para esta doença multifatorial, crônica e progressivamente incapacitante.

A origem da enfermidade está relacionada a uma combinação de fatores ambientais, como a exposição a infecções, poluição do ar, detergentes e pesticidas, assim como câncer, lesão cerebral traumática, dieta e a própria composição da microbiota intestinal. Vários estudos pré-clínicos têm se dedicado a explorar novos tratamentos para a doença de Parkinson, e o eixo intestino-cérebro vem emergindo como um caminho de intervenção promissor. Publicações científicas mostram que diferentes espécies bacterianas pertencentes aos gêneros Lactobacillus, Streptococcus e Bifidobacterium podem proteger modelos animais de neurodegeneração e deficiências motoras, bem como inflamação intestinal e neural, quebra da barreira epitelial intestinal e constipação. Além disso, a influência da disbiose intestinal em outras enfermidades neurodegenerativas já está bem evidenciada, a exemplo de doença de Alzheimer, esclerose lateral amiotrófica e esclerose múltipla.

No entanto, os estudos sobre o eixo intestino-cérebro na doença de Parkinson são quase exclusivamente sobre a ecologia bacteriana intestinal e ignoram o papel potencial dos vírus e fungos. Este ponto chamou a atenção de pesquisadores brasileiros, que realizaram uma revisão da literatura com o objetivo de abordar os principais aspectos hipotéticos do papel da microbiota e de uma comunidade formada por fungos e leveduras na doença de Parkinson. “Analisamos mais de 100 estudos publicados em diferentes bases de dados científicos do mundo para descobrir o que já se sabia sobre as bactérias. Depois, realizamos pesquisas com as palavras-chave fungos e/ou leveduras”, explica o biólogo Dionísio Pedro Amorim Neto, doutorando da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (FEA-Unicamp).

Inicialmente, o trabalho de doutorado investigava a ação de bactérias e leveduras que participam da fermentação do café, porque algumas publicações apontam que o consumo regular da bebida reduz a propensão de desenvolver Parkinson. Como o trabalho de revisão reforçou que não havia publicações relacionadas a leveduras e outros fungos – apenas a relação das bactérias intestinais com a doença –, o projeto passou a pesquisar também o papel desses microrganismos na enfermidade. O estudo sugere que fungos e leveduras, ou seus metabólitos secundários, poderiam tanto proteger como induzir os principais sintomas clínicos do Parkinson. Os fungos funcionariam, ainda, como peça-chave nas causas e origens da doença.

Além disso, foram encontradas semelhanças entre a ação de bactérias e fungos no eixo intestino-cérebro na enfermidade. “Pesquisas mostram que as bactérias são capazes de inibir o estresse oxidativo e o processo inflamatório intestinal e neuronal, bem como estudos com fungos probióticos sugerem influência em modelos de síndrome do intestino irritável e depressão”, acentua o pesquisador. Ademais, foram observados que extratos de fungos filamentosos são capazes de induzir o estresse oxidativo e matar linhagens de neurônios em laboratórios, sugerindo que fungos intestinais desempenham um papel relevante na doença de Parkinson.

Promissora

Para o pesquisador e coordenador do Laboratório de Microbiologia Quantitativa de Alimentos da FEA-Unicamp, Anderson de Souza Sant’Ana, orientador da pesquisa, o estudo do microbioma intestinal e sua relação com a doença de Parkinson representa uma promissora fronteira na busca por novas estratégias terapêuticas e preventivas para essa condição neurodegenerativa. “A crescente evidência da comunicação entre o eixo intestino-cérebro destaca o potencial das bactérias ácido láticas na proteção neuronal, especialmente as associadas ao café. Além disso, reforça a importância do conhecimento da microbiota dos alimentos e de processos fermentativos, que podem contribuir também com esses benefícios”, pontua.

Ao investigar a ação neuroprotetora dessas bactérias em modelos da doença de Parkinson esporádica, os cientistas esperam não apenas ampliar o entendimento sobre os mecanismos envolvidos na condição, mas também abrir caminho para intervenções inovadoras e acessíveis. “No futuro, esse conhecimento pode levar ao desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas baseadas em probióticos, contribuindo para melhorar a qualidade de vida dos pacientes e para a redução dos custos associados ao tratamento”, sugere o pesquisador Anderson de Souza Sant’Ana. •

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