Considerada uma doença neurológica crônica, a enxaqueca é caracterizada por crises de dor de cabeça autolimitadas e incapacitantes, resultantes de uma disfunção transitória no cérebro. Muito prevalente, dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo sofra com essa condição. No Brasil, estima-se que a incidência chegue a 15% da população. Com crises que podem durar de 4 a 72 horas, acompanhadas de náuseas, fotofobia e intolerância aos sons, a doença se manifesta principalmente em adolescentes e adultos jovens, a maioria do sexo feminino.
Com uma dor tipicamente pulsátil e frequentemente localizada em um dos lados da cabeça, a enxaqueca é uma das formas mais comuns de cefaleia (dor de cabeça) em todo o mundo. Pelo fator incapacitante, é apontada ainda como uma das principais causas de ausência no trabalho. O médico neurologista Mario Peres, presidente da Associação Brasileira de Cefaleia em Salvas e Enxaqueca (Abraces) e da International Headache Society (IHS), esclarece alguns mitos e verdades sobre a condição.
Enxaqueca é um tipo de dor de cabeça
Verdade – Porém, a enxaqueca não é apenas uma dor de cabeça, e sim uma doença neurológica crônica. Portanto, exige cuidados especiais e acompanhamento médico regular. O tratamento pode incluir a prescrição de fármacos específicos e de uso contínuo, assim como mudanças nos hábitos alimentares e na rotina de exercícios.
A enxaqueca é causada no fígado
Mito – Os sintomas característicos da doença têm sua origem no cérebro e não no fígado. Durante uma crise, os nervos sensoriais no cérebro e ao redor dos vasos sanguíneos são ativados, levando à liberação de substâncias inflamatórias e neurotransmissores. Além da dilatação dos vasos sanguíneos, o órgão se torna mais sensível aos estímulos, contribuindo para a percepção aumentada da dor.
Analgésicos curam a enxaqueca
Mito – Embora analgésicos possam trazer alívio para diversos tipos de dores de cabeça, geralmente não são eficazes no tratamento da enxaqueca. Isso ocorre pois essa é uma condição complexa, com causas multifatoriais que envolvem mecanismos neuroquímicos específicos.
É necessário realizar exames de imagens para o diagnóstico
Mito – O diagnóstico da enxaqueca é predominantemente clínico, sendo baseado principalmente nos sintomas relatados pelo paciente. Assim, estão incluídos frequência dos episódios, intensidade da dor e a presença de sintomas associados (náuseas, fotofobia e misofonia). Exames complementares podem ser solicitados para descartar outras condições, que possam causar sintomas semelhantes aos da enxaqueca.
A prática de atividade física previne crises de enxaqueca
Verdade – A prática regular de exercícios físicos, realizada fora dos períodos de crise de enxaqueca, pode atuar na frequência e na intensidade das crises. Isso ocorre porque o exercício físico regular ajuda a reduzir o estresse, melhorar a qualidade do sono, promover a liberação de endorfinas e contribuir para o equilíbrio hormonal.
Quem tem enxaqueca pode consumir chocolate, vinho e café
Depende – Alguns pacientes podem ter suas crises provocadas por esses alimentos. Mas isso não é uma regra. Portanto, a recomendação é consultar um médico especializado que ajudará o paciente a identificar quais alimentos podem ser fator desencadeante das crises.
Mulheres são as que mais sofrem com enxaqueca.
Verdade – Após a puberdade, a doença afeta cerca de 18% das mulheres e 6% dos homens, com pico de prevalência entre 20 e 59 anos de idade. As flutuações hormonais ao longo do ciclo menstrual, na gravidez, menopausa ou devido ao uso de contraceptivos hormonais podem influenciar significativamente a ocorrência e a gravidade das crises.
A enxaqueca é uma doença hereditária
Depende – Estudos na literatura apontam que a enxaqueca pode ser parcialmente hereditária. Dessa forma, pessoas com histórico familiar têm maior probabilidade de desenvolvê-la.
Beber água cura a crise de enxaqueca
Mito – Manter-se bem hidratado pode ajudar a prevenir ou reduzir a gravidade das crises, especialmente em indivíduos propensos à enxaqueca induzida pela desidratação. No entanto, embora a água seja essencial para a saúde geral, não é considerada um fator de cura para a doença em si.
A enxaqueca não tem cura, mas tem tratamento
Verdade – As terapias atuais conferem alívio duradouro às crises, proporcionando uma qualidade de vida bastante satisfatória aos seus portadores.
Quem tem enxaqueca não pode se expor ao sol
Mito – Pacientes com crise de enxaqueca geralmente sofrem de fotofobia, ou seja, são sensíveis à luz. Mas isso não quer dizer que não possam ter contato com o sol, mas sim, que devem evitar a exposição prolongada.

