Evidências sugerem que a microbiota intestinal desempenha um papel importante na patogênese da dermatite atópica (DA). De acordo com alguns estudos, o microbioma da pele é um componente chave da patogênese da doença, e a pele de indivíduos com DA é caracterizada por disbiose microbiana e redução da diversidade de microrganismos. Além disso, a dermatite atópica tem por característica uma super-representação de Staphylococcus aureus patogênico (S. aureus) bactéria que prolifera e libera substâncias tóxicas na pele, causando infecção secundária e mais inflamação e coceira.
Estudos recentes relatam, ainda, que vários microrganismos poderiam modular a resposta do hospedeiro por meio da comunicação com queratinócitos, células imunes especializadas e adipócitos para melhorar a saúde da pele e a função de barreira. Além disso, alguns resultados sugerem que o microbioma intestinal também está relacionado à dermatite atópica por meio do eixo intestino-pele – uma comunicação direta entre órgãos de barreira como pele, pulmão e intestino.
Por causa dessa conexão bidirecional entre o microbioma intestinal e o microbioma da pele, um desequilíbrio no microambiente intestinal poderia levar a uma inflamação sistêmica, agravando ou contribuindo para algumas condições de pele. No artigo científico ‘Gut-skin axis: current knowledge of the interrelationship between microbial dysbiosis and skin conditions’, publicado em 2021, pesquisadores da Ghent University, na Bélgica, afirmam que essa comunicação se dá por meio de mediadores inflamatórios, hormônios e neurotransmissores produzidos ou influenciados pela microbiota. Para os autores, o microbioma humano desempenha um papel importante em uma ampla variedade de distúrbios de pele. “Não só o microbioma da pele é alterado, mas muitas doenças de pele também são acompanhadas por um microbioma intestinal alterado”, relatam.
O microbioma é um regulador chave para o sistema imunológico porque visa manter a homeostase, comunicando-se com tecidos e órgãos de maneira bidirecional. Portanto, a disbiose no microbioma da pele e/ou no microbioma intestinal estaria associada a uma resposta imune alterada, promovendo o desenvolvimento de doenças de pele como dermatite atópica, psoríase, acne vulgar e até câncer de pele. “Com a barreira alterada em disbiose na DA, a pele fica muito seca e isso aumenta o risco de infecção ou mesmo de a inflamação ficar muito severa. E esses efeitos do agravamento da inflamação também estão ligados à disbiose das bactérias na pele e no intestino”, acentua o professor doutor Sabri Saeed Sanabani, pesquisador do Laboratório de Investigação Médica em Dermatologia e Imunodeficiência (LIM-56/03) do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
O professor coordenou uma ampla revisão científica sobre dermatite atópica e microbioma que envolveu pesquisadores do LIM-56/03-FMUSP, do Programa de Medicina Translacional do Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Instituto Butantan. O objetivo era elucidar as interações entre sistema imunológico, genes de suscetibilidade, fatores epigenéticos e o microbioma intestinal no desenvolvimento da doença. O estudo ‘The interaction between the host genome, epigenome, and the gut-skin axis microbiome in atopic dermatitis’ confirma que a dermatite atópica é uma doença complexa que envolve epigenética, genética e o componente ambiental.
“Queríamos saber quais resultados recentes já foram descritos em estudos para entender quais são os gaps que precisam ser abordados em novas pesquisas”, descreve o professor Sabri Saeed Sanabani. Os achados da investigação científica confirmam a hipótese de que a disbiose da microbiota, tanto da pele quanto do intestino, pode contribuir para a patogênese da DA. No entanto, a doença também envolve interações complexas entre o sistema imunológico e fatores ambientais, como a disfunção da barreira cutânea. “Esse desbalanceamento microbiano agrava os sintomas e aumenta a inflamação. Estudos de associação de todo o genoma (GWAS) já identificaram alelos de risco de DA, ou seja, formas alternativas que aumentam a probabilidade de um indivíduo desenvolver essa condição”, acentua o professor. Dentre os exemplos de fatores ambientais estão alérgenos, irritantes, poluição e exposição microbiana.
Estrutura do microbioma
Além disso, alguns estudos relatam alterações na estrutura do microbioma intestinal em pacientes com DA em comparação com indivíduos controle, caracterizadas pelo aumento da abundância de Clostridium difficile e diminuição da abundância de bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), como Bifidobacterium. O professor Sabri Saeed Sanabani explica que os AGCC desempenham um papel crítico na manutenção da saúde, e a redução da produção desses metabólitos pode levar à inflamação intestinal em pacientes com dermatite atópica. “Ainda são desconhecidos os mecanismos específicos pelos quais as bactérias disbióticas e seus metabólitos interagem com o genoma e o epigenoma do hospedeiro para causar autoimunidade na dermatite atópica. Mas é consenso que esse desbalanceamento agrava os sintomas e aumenta a inflamação”, acrescenta.
Busca por respostas
Os autores do artigo ‘Skin microbiome of atopic dermatitis’, publicado em 2022, afirmam que o microbioma da pele em indivíduos saudáveis é geralmente estável ao longo do tempo, mas pacientes com DA exibem forte disbiose, especialmente durante surtos. “As complexas relações entre os microrganismos dentro dos consórcios do microbioma da pele incluem várias espécies, como cepas de Staphylococcus, Roseomonas e Cutibacterium, que podem inibir S. aureus e são potenciais probióticos para a pele com DA”, sinalizam. Assim, se a disbiose for corrigida poderá haver melhora do quadro, de acordo com alguns trabalhos experimentais.
Para encontrar respostas para dúvidas sobre o tema, o grupo do LIM-FMUSP quer fazer um estudo conjunto sobre microbiota e epigenética para ver como influenciam na dermatite atópica. Os estudos avaliados na revisão científica do grupo mostraram que o uso de probióticos poderia ajudar na dermatite atópica, especialmente se ofertados precocemente para as crianças – porque ainda estão em processo de colonização de algumas espécies bacterianas. “Existem algumas bactérias, especialmente aquelas que são benéficas como lactobacilos e bifidobactérias, que produzem metabólitos importantes para melhorar a integridade das barreiras e reduzir a inflamação. Esse tipo de probiótico pode ajudar bastante na DA e na saúde em geral”, ressalta o professor Sabri Saeed Sanabani.

