A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os bebês sejam amamentados exclusivamente nos primeiros seis meses de vida. E, se possível, a orientação é manter o aleitamento até os dois anos de idade ou mais – mesmo depois da introdução alimentar. A recomendação se justifica porque o leite materno é o melhor alimento para os bebês, oferecendo todos os nutrientes necessários para uma efetiva proteção contra doenças. O leite humano tem uma composição altamente complexa, contendo todos os nutrientes que o bebê precisa nos primeiros meses de vida. O alimento possui uma mistura única de macronutrientes como proteínas, gorduras e carboidratos; além de micronutrientes, vitaminas, minerais, enzimas, hormônios e compostos bioativos, incluindo anticorpos e fatores imunológicos. No entanto, de acordo com a OMS, apenas 43% das crianças menores de seis meses são amamentadas exclusivamente na América Latina e no Caribe. E a má nutrição durante os estágios iniciais do ciclo de vida pode levar a danos significativos e irreversíveis ao crescimento físico e ao desenvolvimento cerebral.
O leite materno também contém bactérias benéficas, incluindo espécies de Lactobacillus e Bifidobacterium, que ajudam a colonizar o intestino do bebê e formar uma microbiota saudável – fundamental para o desenvolvimento dos sistemas imunológico, digestivo e neurológico (link para retranca). “A transferência dessas bactérias do leite materno para o bebê contribui para a maturação do microbioma intestinal, protegendo contra infecções e doenças inflamatórias. Além disso, modula reações imunológicas sem causar inflamação excessiva”, afirma a médica pediatra Lélia Cardamone Gouvêa, secretária do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e docente da Universidade Santo Amaro (Unisa).
O conteúdo imunológico do leite materno também evolui de acordo com as fases da lactação. Na fase inicial, a concentração de imunoglobulinas secretoras, fatores anti-inflamatórios e células imunologicamente ativas é maior. Já no decurso da lactação, o leite continua a se adaptar às necessidades de proteção imunológica e nutricional do lactente. Com relação à composição do leite em macronutrientes, as proteínas variam entre as mamadas e durante o dia e os lipídios têm maior concentração noturna e também variam com a dieta materna, enquanto os carboidratos se mantêm constantes durante o dia. Os micronutrientes também são influenciados pela dieta materna, com variação circadiana na concentração de alguns minerais como o ferro, que tem o pico de concentração ao meio-dia. Em contrapartida, magnésio, zinco e potássio alcançam níveis mais elevados pela manhã.
A enfermeira Eunice Francisca Martins, professora doutora da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reforça que o leite materno é completo e fornece todos os nutrientes necessários ao bebê mesmo quando a mãe sofre com desnutrição. “Em países africanos, por exemplo, estudos comprovam que os componentes do leite de mães desnutridas são iguais aos das mulheres que não sofrem com a desnutrição, pois o organismo trabalha para proteger a vida e atender às necessidades do bebê. Por isso, precisamos acabar com o mito de que a criança chora porque o leite da mãe é fraco e não sustenta”, pontua. Na verdade, as mães devem procurar entender por que o bebê tem mamado com maior frequência: se é porque gosta de ficar no colo, se existe dificuldade com a ‘pega’ ou mesmo se ocorre a saciedade antes da retirada do leite posterior (do final da mamada e mais rico em gorduras) diante de uma mama com muito leite.
Outro ponto destacado pela enfermeira é que a alimentação da mãe não influencia na composição nutricional do leite materno, mas sim no sabor. No entanto, a orientação é que a mulher mantenha a mesma alimentação de sempre, buscando alimentos saudáveis e alta ingestão de líquidos, e evitando bebidas alcoólicas e gaseificadas. “Não há diferenças significativas entre o leite de mães de diferentes regiões ou contextos socioeconômicos, pois o organismo consegue proporcionar a quantidade de proteína, aminoácidos e vitaminas que atenda à necessidade de cada lactante”, complementa. Da mesma forma, os anticorpos que protegem o bebê estão presentes conforme o histórico da mãe, ou seja, se foi vacinada ou teve alguma infecção. Por isso, é muito importante que a mãe seja devidamente imunizada de acordo com as recomendações dos especialistas que acompanham a gravidez.
Agosto Dourado
A campanha de conscientização Agosto Dourado é dedicada à promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno. O mês foi escolhido por ter sido o período em que, em 1990, a OMS e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) firmaram a Declaração de Innocenti, que tem como objetivo incentivar políticas públicas e ações que garantam o direito à amamentação por todas as crianças. Já a cor dourada simboliza o padrão ouro de qualidade do leite materno, considerado o alimento mais completo para os bebês nos primeiros meses de vida. Para possibilitar o contato da mãe com o bebê imediatamente após o parto foi idealizada a ‘hora de ouro’, ou golden hour, que é a primeira hora da mãe com o filho recém-nascido. O objetivo é promover a continuação do vínculo que começou durante a gestação e ajudar o bebê na transição do útero para o ambiente externo.
