O transtorno do espectro do autismo (TEA) é um distúrbio do neurodesenvolvimento caracterizado por déficits na linguagem, comunicação e interação social, bem como padrões de comportamento repetitivos e restritos a determinadas atividades e interesses. Estimativas clínicas e científicas apontam que cerca de 80% das crianças com TEA possuem algum grau de dificuldade alimentar, tendo como padrões mais prevalentes a seletividade e o comportamento alimentar rígido. Essa restrição está frequentemente relacionada à hipersensibilidade sensorial – aparência, textura, cheiro, cor ou sabor –, rigidez cognitiva, repertório limitado e experiências negativas com alimentos. Desafiadoras, ambas as condições exigem intervenção especializada por equipe multidisciplinar para evitar inadequações no estado nutricional e consequentes agravos à saúde.
Embora pareçam iguais e possam estar interligados, os comportamentos alimentares se apresentam de formas distintas. A seletividade é caracterizada por padrões nutricionais restritos, consumo de pequena variedade de vegetais, frutas e outros produtos in natura ou exclusão de grupos alimentares inteiros. “Esse comportamento geralmente tem início na primeira infância durante a fase de introdução alimentar (por volta dos seis meses) ou ao longo dos dois primeiros anos”, descreve a nutricionista clínica pediátrica Helena Raposo, especialista do Grupo Especializado em Transtornos Alimentares (GETA) e do Programa de Atenção aos Transtornos do Espectro do Autismo (PRATEA) do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (HC-Unicamp). A seletividade está relacionada à sensibilidade tátil e oral, bem como ao aspecto visual, à temperatura e textura dos alimentos. Já os comportamentos alimentares rígidos são caracterizados pela insistência na ‘mesmice’, ou seja, a resistência às mudanças na rotina ou no ambiente da alimentação.
As crianças apresentam comportamentos ritualísticos como, por exemplo, separação de alimentos no prato, organização por formas ou linhas, foco em determinada temperatura, textura ou cor, assim como uso de utensílios fixos – mesmo prato, copo ou talher. Além disso, possuem hipersensibilidade sensorial, interesses limitados e previsíveis, dificuldade em permanecer à mesa durante as refeições e resistência em experimentar novos alimentos. “Contudo, é importante atentar como cada criança com transtorno do espectro do autismo se relaciona, expressa e comporta com os alimentos e em diferentes contextos de ambientes de alimentação, o que demanda uma observação cuidadosa e ampla às individualidades”, esclarece a nutricionista Maria Teresa Fialho de Sousa Campos, professora associada e coordenadora do Laboratório de Educação Alimentar e Nutricional do Departamento de Nutrição e Saúde (DNS) da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
As dificuldades relacionadas ao TEA podem afetar a construção de bons hábitos alimentares e, consequentemente, o estado nutricional. Geralmente, esse público manifesta preferência por alimentos de baixo valor nutricional como bebidas açucaradas (sucos adoçados, refrescos industrializados), dentre outros produtos ultraprocessados como biscoitos recheados, salgadinhos ‘de pacote’, assim como consumo escasso de frutas e vegetais. “A preferência por certos alimentos industrializados prontos para o consumo ocorre devido à previsibilidade sensorial acerca do que irá consumir”, relata a professora Maria Teresa Fialho de Sousa Campos. Especialmente nos casos de rigidez cognitiva, a necessidade de uma rotina com a repetição alimentar traz conforto, previsibilidade e equilíbrio emocional. Porém, o consumo inexpressivo de alimentos saudáveis associado à condição de uma alimentação limitada e repetitiva pode causar deficiências nutricionais, repercutindo em prejuízos à saúde e em um maior risco de distúrbios gastrointestinais. Além disso, influencia as funções cerebrais prejudicando o aprendizado, a concentração e a memória.
Assistência nutricional – “Para evitar deficiências ou excessos nutricionais decorrentes do comportamento de rigidez e seletividade alimentar, a assistência nutricional é fundamental. O nutricionista, inserido dentro de uma proposta interdisciplinar com psicólogo, terapeuta ocupacional, neurologista e fonoaudiólogo, entre outros, utiliza estratégias e intervenções criativas, seguras e eficazes, personalizadas de acordo com as necessidades individuais de cada criança, tendo como foco contribuir para ampliar a aceitação de novos alimentos”, esclarece a professora Maria Teresa Fialho de Sousa Campos. O direito à nutrição adequada e a terapia nutricional passaram a integrar o conjunto de cuidados previstos para pessoas com TEA a partir da publicação da Lei 15.131/2025, que altera a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Lei 12.764/2012), representando um avanço importante na promoção da saúde integral e do bem-estar desses indivíduos.

