No artigo ‘Microbiota intestinal como novo alvo terapêutico na Cardiologia’, publicado em 2025, os autores lembram que altos níveis circulantes de TMAO têm sido associados a um maior risco cardiovascular, promovendo inflamação vascular, disfunção endotelial, estresse oxidativo e aumento da agregação plaquetária. Resultante do metabolismo hepático da trimetilamina (TMA) – sintetizada pelas bactérias a partir de colina, L-carnitina e fosfatidilcolina – o TMAO é uma molécula produzida quando bactérias intestinais digerem nutrientes, como colina e carnitina, presentes em alimentos de origem animal. O excesso desse metabólito na corrente sanguínea tem sido fortemente associado ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, inflamações e problemas renais.
“Evidências recentes mostram que alterações na composição e na diversidade da microbiota intestinal (disbiose) estão associadas ao desenvolvimento de hipertensão arterial, aterosclerose, insuficiência cardíaca e doença arterial coronariana. E um dos principais mecanismos implicados é a produção de metabólitos bacterianos, como o TMAO”, acentuam os autores. Além disso, o microbioma influencia a pressão arterial por meio da produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) como butirato, propionato e acetato, que atuam em receptores específicos modulando o tônus vascular e a resposta imune. Os autores do artigo informam, ainda, que intervenções terapêuticas visando a modulação do microbioma intestinal – dieta, uso de prebióticos, probióticos e até mesmo transplante de microbiota fecal (quando indicado) – têm sido investigadas como estratégias coadjuvantes na prevenção e no manejo das DCV.
Dessa forma, o eixo intestino-coração passa a representar uma fronteira promissora na Cardiologia preventiva e personalizada. A médica patologista Thamiris Nadaf Fernandes, que atua na área de Cardiologia e é professora do Departamento de Anatomia Patológica e Medicina Legal da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) – uma das autoras do artigo –, afirma que a disbiose também pode comprometer a barreira intestinal, favorecendo a translocação bacteriana e o aumento da inflamação sistêmica, outro fator de risco importante para DCV. “Não tem como falar de coração sem abordar a dieta do paciente. Hoje em dia, sabemos que todas as doenças cardiovasculares são relacionadas àquilo que as pessoas comem, como vivem e quais atividades praticam. Portanto, colocar a microbiota intestinal neste contexto e explicar para os pacientes é muito importante”, resume.

