O uso de bebidas alcoólicas concomitante com o excesso de peso representa um relevante problema de saúde, elevando o risco de desenvolvimento da doença hepática relacionada ao álcool. Isso porque os adipócitos – células responsáveis pelo armazenamento de energia sob a forma de gordura – também desempenham papel endócrino, participando da regulação do metabolismo energético e de processos inflamatórios. Isso significa que existe uma interação constante entre o tecido adiposo e o fígado.
Com o objetivo de discutir os mecanismos fisiopatológicos envolvidos nessa associação, pesquisadores do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto elaboraram um artigo de revisão sobre o tema. “A investigação busca compreender de que maneira o consumo de bebidas alcoólicas afeta o tecido adiposo e como essas alterações repercutem no sistema cardiovascular”, explica o pesquisador Thales Dourado, integrante do Laboratório de Farmacologia Cardiovascular da Instituição.
O estudo da USP analisou o funcionamento de três modalidades de tecido adiposo. O tecido adiposo branco é a forma de gordura predominante no organismo humano. Essa gordura atua principalmente no armazenamento de lipídeos como reserva de energia, além de liberar adipocinas – moléculas sinalizadoras que influenciam processos biológicos no pâncreas, no fígado e no sistema vascular.
Dependendo de fatores ambientais, esse tecido pode assumir um perfil pró-inflamatório. Em situações de obesidade, por exemplo, passa a secretar substâncias que comprometem o funcionamento dos órgãos. O tecido adiposo branco também exerce influência sobre a atividade hepática e o fígado, por sua vez, tem papel central na esterificação de ácidos graxos e no metabolismo lipídico.
“A ingestão excessiva de álcool reduz a lipólise, ou seja, o processo de quebra da gordura para geração de energia”, resumem os autores. Além disso, estimula a lipogênese, que corresponde à produção e ao acúmulo de gordura. Esse desequilíbrio pode resultar em esteatose hepática, conhecida como fígado gorduroso. A condição favorece, ainda, o depósito de lipídeos em outros tecidos e contribui para o aumento da resistência à insulina, elevando o risco de diabetes tipo 2.
Marrom e perivascular
Já o tecido adiposo marrom encontra-se em áreas específicas do corpo, como na região posterior do pescoço. Sua principal função é a produção de calor por meio da queima de gordura – processo chamado de termogênese. De acordo com a literatura, o etanol pode interferir na capacidade de regulação térmica do organismo, pois reduz a expressão de genes essenciais para a termogênese. Por isso, o indivíduo pode se tornar mais resistente a baixas temperaturas.
A partir dessas observações, os pesquisadores da USP constataram que a modulação do tecido adiposo marrom poderia ser uma estratégia para evitar o surgimento de doenças hepáticas. “Há evidências de que esse tecido desempenha um papel protetor contra os efeitos prejudiciais do etanol”, ressaltam. Logo, se for possível ajustar a atividade do tecido adiposo marrom, pode-se também reduzir o risco de enfermidades hepáticas – especialmente graves em pessoas com excesso de peso.
Já o tecido adiposo perivascular envolve os vasos sanguíneos e pode manifestar propriedades semelhantes às dos adipócitos brancos ou marrons – conforme a região do corpo em que se encontra. Mas, em situação de risco, como na obesidade, esse tecido perde as propriedades originais e passa a secretar mais fatores de contração e pró-inflamatórios, podendo causar disfunção endotelial e alterações estruturais nas células.
Melhor prevenção
O trabalho mostrou que o consumo de bebidas alcoólicas impacta os diferentes tipos de tecido adiposo de maneiras distintas. No tecido adiposo perivascular, por exemplo, a ingestão crônica de etanol leva a um estado pró-inflamatório e pró-contrátil, resultando em disfunção vascular e hipertensão arterial. No tecido adiposo marrom, por sua vez, o álcool estimula a termogênese e reduz a lipólise.
Já no tecido adiposo branco, o etanol apresenta efeitos lipolíticos e antilipogênicos que alteram a secreção de adipocinas e aumentam os mediadores pró-inflamatórios. Consequentemente, esse tecido se torna um fator significativo na progressão da doença hepática alcoólica e pode, também, contribuir para o desenvolvimento da hipertensão arterial.
De acordo com o pesquisador Thales Dourado, avanços consideráveis foram feitos na compreensão do papel do tecido adiposo nos danos orgânicos relacionados ao etanol. No entanto, os mecanismos moleculares específicos que ligam a lesão do tecido adiposo à progressão da lesão vascular e hepática devido ao consumo de etanol ainda são pouco compreendidos. “Ao compreender os fatores envolvidos em determinada condição clínica é possível pensar em maneiras de interromper esse processo e apontar alvos terapêuticos”, destaca o professor Carlos Tirapelli, orientador e autor correspondente do estudo.

