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A placenta é uma membrana amniótica

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Placenta ganha novos papéis na medicina

Escrito por: Elessandra Asevedo

placenta é um órgão temporário que se forma durante a gravidez, conectando o feto à parede uterina para fornecer nutrientes, oxigênio e remover resíduos. Essencial durante todo o período gestacional, após o nascimento do bebê a placenta se desprende do útero, é expelida ou retirada e, em seguida, descartada. No entanto, pesquisadores perceberam que se tratava de um material muito rico e que poderia ser utilizado de outras formas após cumprir seu papel principal. Hoje, a placenta (membrana amniótica) vem sendo pesquisada e aplicada na Medicina Regenerativa, em curativos biológicos para queimaduras e feridas crônicas, assim como em estudos com pessoas que sofreram lesões na medula espinhal para a recuperação de movimentos. 

Em junho de 2025, o Ministério da Saúde publicou uma portaria no Diário Oficial da União (DOU) que amplia o tratamento de queimaduras no Sistema Único de Saúde (SUS) com a incorporação do transplante da membrana amniótica. Essa é a camada da placenta que possui características biológicas importantes em aplicações clínicas, como propriedades anti-inflamatórias e antimicrobianas. No Brasil, muitos pacientes que sofrem queimadura dependem do SUS e enfrentam limitações de acesso a bancos de pele, enxertos ou curativos sofisticados. Neste cenário, a membrana amniótica surge como uma alternativa promissora. 

O cirurgião plástico e pesquisador André Oliveira Paggiaro, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), explica que a membrana amniótica é utilizada internacionalmente há bastante tempo, mas só foi liberada para uso no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) no final de 2021. “Agora, foi aprovada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT)”, informa o médico, que é chefe do Banco de Tecidos da FMUSP e figura-chave nos estudos e na implantação dessa tecnologia no Brasil.  

Em feridas de queimadura, quando a pele foi destruída ou comprometida, essa membrana pode servir como curativo biológico cobrindo a ferida, protegendo contra infecção, favorecendo o ambiente para a cicatrização e reduzindo a dor. “A membrana estimula para que as próprias células do indivíduo se multipliquem, se reproduzam e tenham a formação de uma nova pele”, detalha o pesquisador. Para pacientes com queimaduras de grande extensão, o fechamento rápido da ferida é um elemento essencial para evitar infecções, complicações metabólicas e óbito. Por enquanto, o material pode ser utilizado apenas em queimaduras, mas, em breve, poderá colaborar com lesões em geral e em feridas oftalmológicas 

Classificadas de acordo com a profundidade da lesão na pele e nos tecidos subjacentes, as queimaduras de primeiro grau atingem apenas a epiderme, que é a camada mais superficial da pele, e geralmente demandam cuidados mais simples. No entanto, as de segundo grau afetam a epiderme e parte da derme, apresentando bolhas, dor intensa e possível exsudação. “É nesse estágio que a membrana amniótica tem melhor efeito”, ressalta o pesquisador. Já as queimaduras de terceiro grau são as mais graves, pois destroem todas as camadas da pele e podem atingir músculos, nervos e ossos, deixando a região esbranquiçada, enegrecida ou endurecida, e geralmente sem dor inicial devido à destruição das terminações nervosas. Neste caso, a melhor alternativa e efetividade é o transplante da pele.  

Curativo biológico 

O uso da membrana amniótica começa com o consentimento de doação da placenta pela gestante, que preenche os critérios de segurança necessários. No dia do parto, que precisa ser cesáreo, a equipe do Banco de Tecidos acompanha o procedimento e, após a retirada da placenta – ainda dentro do centro cirúrgico – os profissionais já separam a membrana amniótica, que é a parte mais superficial, transparente e fina. A fração é levada dentro de uma solução com soro fisiológico até o Banco de Tecidos, onde passará por exames microbiológicos e processamento. No Brasil, o processo pode ser feito de diferentes formas, mas a principal técnica de preservação é a glicerolização, ou seja, a membrana é exposta ao glicerol. Esse álcool desidrata o material, mas mantém as propriedades e permite o armazenamento em geladeira.  

“A técnica possibilita que a membrana fique armazenada por dois anos, proporcionando maior disponibilidade e facilidade de doação”, enfatiza o pesquisador. O uso deste material também tem a vantagem de ser originário de um momento feliz, sem óbito e de um material que seria descartado. Por isso, tem baixa taxa de recusa por parte das doadoras. Quando necessário, o banco envia a membrana amniótica para o médico que solicitou e este será responsável por reidratar o material, deixando submerso no soro fisiológico por cerca de 30 minutos. Depois, é só aplicar sobre a ferida onde, em geral, é mantido por sete dias. O pesquisador André Oliveira Paggiaro enfatiza que o risco de infecção sempre existe, mas é baixo. E a única contraindicação é o uso em feridas oncológicas, devido à baixa imunidade dos pacientes.  

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