A hipertensão arterial é uma doença crônica que costuma evoluir sem provocar sintomas por muitos anos. Enquanto a maioria das pessoas se sente bem, a pressão arterial elevada pode estar causando danos progressivos. O cardiologista Luiz Aparecido Bortolotto informa que cerca de 90% das pessoas com a enfermidade não apresentam sintomas. Em alguns casos, no entanto, sinais como dor de cabeça frequente, tontura, dor no peito, falta de ar e sangramento nasal podem servir de alerta e indicar a necessidade de avaliação médica. Como a hipertensão evolui de forma silenciosa e, às vezes, é descoberta quando já provocou danos importantes ao organismo, muitos pacientes chegam ao atendimento médico apenas após desenvolverem complicações graves. “A hipertensão é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento da aterosclerose, processo caracterizado pelo acúmulo de placas de gordura nas paredes das artérias. Essas placas podem obstruir as coronárias e provocar um infarto, bloquear vasos sanguíneos do cérebro e causar um AVC ou comprometer a circulação dos rins, levando à insuficiência renal”, alerta a cardiologista Erika Campana.
A pressão arterial elevada também pode atingir os pequenos vasos da retina, aumentando o risco de perda da visão e cegueira. No coração, o esforço constante para bombear o sangue encontra uma pressão mais alta fazendo com que o músculo cardíaco trabalhe em sobrecarga. Com o tempo, isso pode provocar aumento e dilatação do coração, culminando em insuficiência cardíaca. Como os vasos sanguíneos estão distribuídos por todo o organismo, os efeitos da pressão arterial elevada podem atingir praticamente qualquer órgão. A aterosclerose também pode afetar a aorta, favorecendo a formação de aneurismas, ou comprometer as artérias das pernas, causando doença arterial periférica, que dificulta a circulação e pode provocar dor e outras complicações. Além das doenças cardiovasculares, evidências mais recentes mostram que a hipertensão também está associada ao comprometimento do cérebro. “Alterações na circulação cerebral podem surgir ainda nas fases iniciais da doença e aumentar o risco de déficit cognitivo e demência, um problema que preocupa cada vez mais diante do envelhecimento da população”, orienta a médica.
Quanto mais tempo o paciente permanece hipertenso sem tratamento ou com a doença mal controlada, maiores são as chances de desenvolver lesões permanentes nos vasos sanguíneos e nos órgãos-alvo. Mesmo quando a pressão é controlada, parte desses danos pode persistir, fenômeno conhecido como risco residual. Portanto, tratar a hipertensão reduz significativamente o risco de eventos cardiovasculares, mas não consegue apagar completamente os prejuízos acumulados. Mas o risco pode ser reduzido com diagnóstico precoce, tratamento adequado e mudanças no estilo de vida, como alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle do peso, redução do consumo de sal e abandono do tabagismo.
As Diretrizes das Sociedades Brasileiras de Cardiologia, de Hipertensão e de Nefrologia recomendam que a pressão arterial seja medida em todas as pessoas a partir dos três anos e deve fazer parte da rotina de consultas médicas, inclusive pediátricas, ginecológicas e oftalmológicas. Para confirmação, é necessário verificar se os níveis permanecem altos em diferentes ocasiões e condições adequadas de aferição. O paciente deve estar em repouso, sentado, com os pés apoiados no chão e o braço na altura do coração, evitando fatores que possam interferir no resultado como atividade física e consumo de cigarro, bebidas alcoólicas ou café pouco antes do exame.
Quando a pressão apresenta valores elevados, o médico deve repetir as medições em novas consultas para confirmar o diagnóstico. Em alguns casos, também podem ser solicitados exames como a Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA), que acompanha a pressão durante 24 horas, ou a Monitorização Residencial da Pressão Arterial (MRPA), realizada pelo próprio paciente em casa ao longo de alguns dias. “Esses métodos ajudam a identificar situações como a hipertensão do avental branco, quando a pressão sobe apenas durante a consulta médica, ou a hipertensão mascarada, em que os níveis são normais no consultório, mas elevados na rotina”, afirma a médica cardiologista Erika Campana. Após a confirmação da hipertensão, o paciente passa por uma avaliação para verificar se a doença já causou danos a órgãos como coração, rins, cérebro e vasos sanguíneos, além da investigação de outros fatores de risco cardiovasculares. O diagnóstico precoce é considerado essencial para iniciar o tratamento o quanto antes e reduzir o risco de complicações. •
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