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Cardiologia regenerativa

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O desafio dos estudos envolvendo a Cardiologia regenerativa

Escrito por: Fernanda Ortiz

Ao propor uma nova abordagem para o tratamento das doenças cardiovasculares, especialmente diante da crescente incidência da insuficiência cardíaca – condição que afeta mais de 26 milhões de pessoas no mundo e cerca de 2 milhões no Brasil –, a Cardiologia regenerativa desponta como um campo promissor. Diferentemente das terapias convencionais, centradas no controle de sintomas e na limitação da progressão da doença, a área busca restaurar estruturas cardíacas lesionadas por meio da ativação de mecanismos biológicos de reparo tecidual. Isso é particularmente relevante porque o músculo cardíaco possui capacidade extremamente limitada de regeneração após eventos como o infarto agudo do miocárdio, no qual há perda massiva de cardiomiócitos (células musculares do coração).

A Cardiologia regenerativa partiu da ideia de que células-tronco da medula óssea poderiam regenerar o miocárdio lesionado ao se diferenciarem em cardiomiócitos e células vasculares, à semelhança do que já ocorria em terapias hematológicas. Com o avanço das investigações verificou-se que essa diferenciação direta era limitada para restaurar o tecido cardíaco de forma significativa. Em contrapartida, observou-se que essas células atuavam principalmente por efeito parácrino, ou seja, liberando fatores de crescimento, citocinas e microRNAs (miRNAs) capazes de modular a inflamação e reduzir a fibrose. “A partir dessas evidências, consolidaram-se duas abordagens na área. A regeneração, voltada à formação de novo tecido miocárdico funcional, e a reparação, centrada na modulação do microambiente cardíaco e na limitação da progressão da lesão. Esta última é a que tem apresentado avanços mais consistentes na prática translacional”, destaca o médico José Eduardo Krieger, professor titular de Genética e Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Instituto do Coração (InCor).

Atualmente, as linhas de pesquisa conduzidas no InCor-HC-FMUSP envolvem o estudo de microRNAs e RNAs longos não codificantes (lncRNAs), moléculas que funcionam como reguladores essenciais da expressão gênica, modulando processos celulares relevantes. Esses candidatos foram identificados a partir de microvesículas derivadas de células mesenquimais do tecido adiposo que já haviam demonstrado efeitos benéficos em estudos anteriores. Segundo o médico, os microRNAs selecionados estão sendo avaliados inicialmente em culturas celulares e, posteriormente, em microtecidos cardíacos com fibrose induzida. O objetivo é verificar o potencial de redução de processos inflamatórios e fibróticos associados à insuficiência cardíaca.

Desafios

De acordo com o médico José Eduardo Krieger, um dos principais desafios é a entrega eficiente dessas moléculas terapêuticas ao tecido cardíaco. Para isso, diferentes plataformas têm sido testadas, incluindo nanopartículas lipídicas (LNPs) semelhantes às utilizadas em vacinas de RNA mensageiro. Além disso, são usados partículas semelhantes a vírus (VLPs) e vetores virais modificados, incluindo adenovírus com tropismo direcionado ao tecido cardíaco. “Todo esse desenvolvimento segue uma estratégia escalonada que parte de sistemas celulares derivados de células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs) humanas, passa pelos microtecidos organoides e evolui progressivamente até modelos pré-clínicos mais sofisticados”, detalha.

Na avaliação do pesquisador, os avanços mais próximos da aplicação clínica concentram-se atualmente na área de reparação cardíaca, com foco na modulação da resposta inflamatória, na redução da fibrose e na preservação da função contrátil do miocárdio. Neste cenário, busca-se principalmente atenuar os efeitos da lesão cardíaca e limitar o processo de remodelamento ventricular. Já a regeneração completa do coração ainda é considerada um objetivo distante dentro da Medicina Cardiovascular regenerativa. “Diminuir o tamanho do dano causado pelo infarto já é possível. Porém, regenerar completamente o coração ainda é algo muito precoce. Ainda que o conceito de regeneração plena seja cientificamente desejável, outros órgãos, como o fígado, apresentam uma capacidade regenerativa funcional significativamente mais avançada quando comparados ao tecido cardíaco”, acentua.

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