Os probióticos têm sido intensamente estudados por beneficiar a saúde intestinal, uma vez que modulam a microbiota do intestino e o equilíbrio imunológico, melhorando a barreira intestinal. No entanto, devido à ampla conexão do intestino com outros órgãos e sistemas, essas investigações vêm mostrando que os benefícios vão além desse órgão e podem melhorar inúmeras condições, a exemplo de doenças metabólicas e cardiovasculares, dentre várias outras. Esses microrganismos vivos estimulam as citocinas Th1, inibindo a produção das citocinas pró-inflamatórias que impulsionam a imunidade celular contra patógenos intracelulares, como vírus e bactérias, e suprimem a resposta imune Th2 mediada por linfócitos T helper 2 (CD4+). No caso da pele, esses efeitos benéficos dos probióticos seriam responsáveis pela redução do fenômeno alérgico e da gravidade da dermatite atópica.
Em 2017, a dermatologista Michelle Lise, do Centro Clínico da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), atendeu uma criança com dermatite atópica grave e resistente aos tratamentos convencionais. A menina de 18 meses tinha histórico prévio de DA clássica com queilite ocasional, assim como alergia alimentar e alergia em membros da família. Além disso, o pai relatou episódios de sibilos e rinorreia iniciados oito meses antes, após internação por bronquiolite relacionada ao adenovírus. “Os pais já tinham consultado vários dermatologistas e estavam usando emoliente após o banho e creme de mometasona duas vezes ao dia nas lesões. Entretanto, a menina sofria com coceira intensa e tinha a pele constantemente inflamada”, relata a médica Michelle Lise. O exame físico também revelou xerose, prega de Dennie-Morgan e áreas de eritema e liquenificação nas fossas antecubitais, abdômen e pernas.
A dermatologista lembra que a microbiota intestinal participa diretamente do equilíbrio imunológico. No entanto, quando esse equilíbrio se perde, o organismo reage produzindo substâncias inflamatórias – o que pode prejudicar doenças de pele. Assim, decidiu fazer um estudo de caso para avaliar se os probióticos poderiam melhorar a dermatite na criança. Na intervenção com probióticos foram usadas cepas de Bifidobacterium lactis HN019, Lactobacillus acidophilus NCFM, Lactobacillus rhamnosus HN001 e Lactobacillus paracasei LPC-37 uma vez ao dia, mantendo o uso de mometasona uma vez ao dia e hidratante após o banho. “Introduzimos os probióticos e passamos a monitorar a evolução de perto, com avaliações clínicas regulares e escores de gravidade padronizados”, descreve.
A paciente retornou após duas semanas e o exame físico não revelou áreas de eritema. “A resposta foi muito positiva. Houve redução importante das lesões e da coceira, e a qualidade do sono e bem-estar da criança melhoraram. A pele cicatrizou mais rapidamente e a necessidade de medicamentos diminuiu. Este caso abriu caminho para pensarmos além do tratamento tradicional, embora saibamos que cada paciente é único”, afirma a médica. A paciente permanece em acompanhamento utilizando probióticos e mantendo a melhora clínica. Embora seja um caso isolado, a melhora da criança chamou atenção e reforçou quanto o equilíbrio da microbiota pode influenciar a inflamação e a resposta imunológica. Ademais, o resultado reforçou a evidência de que cuidar da microbiota pode ser uma estratégia valiosa, especialmente em casos resistentes. O artigo ‘Use of probiotics in atopic dermatitis’ foi publicado em 2018 na Revista da Associação Médica Brasileira.

