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O eixo intestino-microbiota na sepse

Escrito por: Adenilde Bringel

Os cientistas têm demonstrado que o microbioma intestinal é um influenciador-chave na sepse, uma vez que a disbiose causada pelo uso de antibióticos de amplo espectro durante o tratamento dessa condição pode resultar em desregulação imunológica. Mais recentemente, os pesquisadores passaram a investigar como o microbioma em vários locais de colonização, como pulmão, pele e intestino, poderia influenciar essa desregulação imunológica que se desenvolve durante a sepse. Alguns estudos já conseguiram demonstrar, por exemplo, que a ruptura da barreira intestinal durante a sepse permite que bactérias e toxinas migrem para a circulação – a chamada translocação bacteriana – perpetuando a inflamação e podendo levar ao choque séptico e à disfunção de órgãos, comumente associada a este quadro clínico. De acordo com alguns autores, já existem evidências convincentes de que o microbioma desempenha um papel significativo na ocorrência, no curso e no resultado da sepse por meio de seus efeitos na desregulação imunológica que leva à falência de órgãos. Assim, os cientistas acreditam que, no futuro, terapias direcionadas à microbiota podem ser usadas para impulsionar uma resposta imune favorável durante doenças críticas.

No artigo de revisão ‘Sepsis and the microbiome: a vicious cycle’, publicado em 2021 no The Journal of Infectious Diseases, por exemplo, pesquisadores norte-americanos afirmam que alterações resultantes da sepse e seu tratamento no microbioma intestinal têm sido implicadas na disfunção de diferentes órgãos, incluindo pulmão, rim e cérebro. Pesquisadores chineses também concluem, no artigo ‘The gut-liver axis in sepsis: interaction mechanisms and therapeutic potential’, que a lesão hepática induzida por sepse é um forte preditor de morte nas unidades de terapia intensiva, com evidências epidemiológicas que demonstram conversas cruzadas íntimas entre o intestino e o fígado. Segundo os autores, a ruptura da barreira intestinal e a disbiose da microbiota intestinal durante a sepse resultam na translocação de padrões moleculares associados a patógenos intestinais e a danos no fígado e na circulação sistêmica.

Uma das grandes preocupações da sepse envolve prematuros. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 1 em cada 10 bebês nasce prematuro no mundo, o que equivale a aproximadamente 1,2 milhão apenas na região das Américas. A sepse neonatal pode acometer tanto recém-nascidos a termo quanto pré-termo, principalmente aqueles com peso inferior a 1.500 gramas. E uma das causas da prematuridade pode ser a ruptura prematura de membranas (PPROM, na sigla em inglês), que está associada à disbiose vaginal. “Esse desequilíbrio na microbiota vaginal da gestante ocorre em praticamente um terço dos casos de partos prematuros”, afirma o bioquímico mestre em Microbiologia e doutor em Patologia pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Luiz Gustavo dos Anjos Borges. Um dos fatores para a alteração da microbiota vaginal é a atividade sexual, mas esse microambiente também sofre influência da alimentação, de questões hormonais e do uso de antibióticos pela gestante.

No estudo ‘Vaginal and neonatal microbiota in pregnant women with preterm premature rupture of membranes and consecutive early onset neonatal sepsis’, desenvolvido no Helmholtz Centre for Infection Research (HZI), na Alemanha, os pesquisadores avaliaram a composição microbiana vaginal de gestantes com PPROM e seu desenvolvimento sob antibioticoterapia padrão. “Além disso, avaliamos a utilidade da microbiota vaginal para a previsão de sepse neonatal de início precoce e investigamos a microbiota neonatal no nascimento como um possível espelho da microbiota in útero”, informa o microbiologista Luiz Gustavo dos Anjos Borges, principal autor do estudo. O grupo entrevistou um grande número de mães atendidas pelas maternidades e clínicas neonatais colaboradoras do estudo. Assim, foram selecionadas 78 gestantes que chegaram com algum sintoma de ruptura de membranas e em um estágio de gravidez que sinalizava um caso de nascimento prematuro.

Risco

O estudo envolveu apenas casos em que o risco era maior, ou seja, gestação com 22 a 34 semanas. O microbiologista explica que não é exatamente o parto prematuro que vai dar mais risco para o bebê em termos de sepse, mas o tempo em que ficou exposto a microrganismos durante a gestação. Por esse motivo, o primeiro ponto a observar é o motivo pelo qual houve a ruptura de membranas. “Se a ruptura ocorreu por uma inflamação bacteriana na membrana placentária, isso indica um risco de infecção do feto. Então, o feto pode ser invadido por alguma bactéria ou entrar em contato com uma bactéria e isso pode se prolongar por semanas até que haja total rompimento da placenta para que ocorra o nascimento”, detalha. Por causa disso, este seria o principal ponto de relação entre a ruptura prematura da membranas com a sepse neonatal.

Embora normalmente a membrana placentária proteja totalmente o bebê e o líquido amniótico de qualquer possibilidade de presença bacteriana ou microrganismo, existem alguns casos em que a membrana não está totalmente íntegra e um deles é a condição da mãe durante a gravidez. O pesquisador explica que existem vários fatores que podem levar à ruptura de membranas, e um dos mais importantes é uma infecção bacteriana causada por um microrganismo invasor que ascende do canal vaginal para o útero e acaba causando esse rompimento ou essa infecção. “Isso pode ocorrer por qualquer questão de saúde ou comportamento, por exemplo, durante uma atividade, por choque ou trauma. E, infelizmente, não existe uma forma única para evitar”, acentua. Ademais, fumo e álcool também são fatores relacionados. Portanto, é uma questão de cuidado no comportamento, na alimentação e na saúde geral para que a gestante tenha tecidos íntegros e bem formados que evitem a prematuridade e o consequente risco para o feto.

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