O pulmão, antes considerado um órgão estéril, abriga uma comunidade de microrganismos que participa da regulação do sistema imunológico. Recentemente, um estudo mostrou que alterações na microbiota pulmonar e na inflamação local modificam genes de pontos de controle imunológico. Essas mudanças podem favorecer a progressão do câncer de pulmão e influenciar a resposta às imunoterapias.
Ao analisar um amplo conjunto de genes relacionados à imunidade no microambiente pulmonar, o estudo destaca que diversos apresentam alterações de expressão ao longo da progressão do câncer de pulmão. Entre os mais relevantes estão VTCN1 (B7-H4), KIR2DL4 e HLA-DRB5, cujas alterações já foram associadas a desfechos clínicos desfavoráveis. Os autores ressaltam, ainda, que essas moléculas participam da regulação da resposta imune e podem contribuir para a imunossupressão no microambiente tumoral, favorecendo a evasão das células cancerosas.
Alterações microbianas
De acordo com o estudo, a progressão do câncer de pulmão está associada a alterações na composição da microbiota pulmonar. Estudos anteriores observaram maior abundância de bactérias dos gêneros Veillonella e Megasphaera, além do aumento de microrganismos como Escherichia coli, Enterobacter, Haemophilus influenzae e Staphylococcus. “Essas mudanças na comunidade microbiana têm sido associadas a um ambiente pró-inflamatório, maior proliferação celular e alterações genéticas”, observam os pesquisadores.
Em conjunto, esses fatores podem contribuir para um microambiente favorável ao desenvolvimento e à progressão tumoral. Além disso, a microbiota intratumoral parece interagir com o sistema imunológico, modulando mecanismos envolvidos na carcinogênese pulmonar e potencialmente influenciando a resposta às imunoterapias.
Genes, inflamação e microrganismos
O estudo destaca a existência de uma rede complexa de interações entre genes relacionados à imunidade. Segundo os autores, muitos genes apresentaram correlação com marcadores inflamatórios, reforçando a conexão entre resposta imune, inflamação local e microambiente tumoral pulmonar. Além disso, foram identificadas associações entre determinados genes envolvidos na apresentação de antígenos e na ativação de células de defesa, e a composição da microbiota pulmonar. Embora esses achados indiquem uma possível interação entre microbiota pulmonar, regulação imunológica e progressão tumoral, os mecanismos envolvidos ainda precisam ser esclarecidos em estudos futuros.
Perspectivas para a imunoterapia
De acordo com os autores, compreender a interação entre microbiota pulmonar, inflamação e genes de pontos de controle imunológico pode abrir novas perspectivas para o tratamento do câncer de pulmão. “No futuro, esses genes ou proteínas poderão atuar como biomarcadores prognósticos e preditivos, contribuindo para estratégias terapêuticas mais personalizadas”, acreditam. O artigo “Pulmonary microbiota, local inflammation, and tumor progression impact immune checkpoint gene profiles in the lung microenvironment” foi publicado em abril de 2026 na revista Physiological Genomics, da American Physiological Society – doi: 10.1152/physiolgenomics.00300.2025.

