Aproximadamente 70% das mortes globais são resultado das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) incluindo câncer, doenças autoimunes, metabólicas, cardiovasculares e neurodegenerativas. A prevalência está aumentando em todo o mundo por causa do envelhecimento, da urbanização e das mudanças no estilo de vida. Mais recentemente, os cientistas passaram a investigar se o eixo sexo-microbiota intestinal também poderia ter alguma interferência nessas enfermidades.
Nos últimos anos, a microbiota intestinal emergiu como um regulador central da saúde humana moldando o metabolismo do hospedeiro, as respostas imunes e a função da barreira epitelial. Como consequência, a disbiose (desequilíbrio) na composição e função do microbioma tem sido implicada na patogênese de DCNT. Isso porque os produtos microbianos, incluindo ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) e ácidos biliares secundários, podem modular a inflamação sistêmica, o metabolismo e a regulação imune. Dessa forma, poderiam servir como mediadores entre exposições ambientais e o desenvolvimento de doenças.
Paralelamente, dados emergentes sugerem que o sexo biológico é uma chave determinante da composição e função da microbiota intestinal. Diferenças sexuais, alterações hormonais e exposições relacionadas ao estilo de vida contribuem para as distintas comunidades microbianas. Além disso, diferenças sexuais têm sido descritas para diversas doenças crônicas. Isso inclui maior suscetibilidade a doenças autoimunes em mulheres e maior incidência de distúrbios metabólicos e cardiovasculares em homens.
Revisão científica
Pesquisadores italianos realizaram uma revisão sobre o atual conhecimento sobre a conexão entre o eixo sexo-microbiota intestinal e as DCNT. De acordo com os resultados encontrados, para esclarecer os mecanismos subjacentes é necessária a realização de estudos longitudinais cuidadosos, com estratificação por sexo. Para os cientistas, a pesquisa futura deve seguir três direções principais. Primeiro, são necessários estudos clínicos bem delineados e estratificados por sexo para validar biomarcadores microbianos e alvos terapêuticos para abordagens personalizadas.
“Segundo, abordagens integrativas como metagenômica, metabolômica e imunoprofilagem ou multiômica serão inestimáveis para delinear as vias causais que ligam sexo, microbiota intestinal e desfechos de doenças”, pontuam os autores. Por fim, novas intervenções precisam ser projetadas e estudadas de forma específica para cada sexo, a fim de maximizar a eficácia e minimizar os danos. Dentre elas probióticos de precisão, pós-bióticos, intervenções dietéticas e transplante de microbiota fecal.
Probióticos são aliados
Evidências clínicas recentes também sugerem que a suplementação com probióticos pode ter efeitos imunomoduladores dependentes do sexo. Por exemplo, em um ensaio duplo-cego, randomizado e controlado por placebo envolvendo idosos, os probióticos induziram modulação significativa de táxons intestinais e subconjuntos de células imunes periféricas. Assim, afetaram monócitos, células dendríticas e células T CD4+ de maneira específica para cada sexo.
Além disso, em mulheres diagnosticadas com síndrome dos ovários policísticos observou-se um efeito benéfico no perfil hormonal, nos níveis de globulina ligadora de hormônios sexuais e no índice de massa corporal após uma intervenção de 12 semanas com um probiótico multicepas. “Esses achados confirmam ainda mais a importância da modulação do microbioma relevante para cada sexo”, ressaltam. Além dos probióticos, os pós-bióticos estão ganhando reconhecimento pelo potencial clínico. Revisões recentes destacaram, ainda, a capacidade de regular vias imunes e metabólicas.
“Ademais, estudos mecanísticos indicam que a modulação do metabolismo dos hormônios ovarianos induzida por probióticos e as atividades de enzimas microbianas poderiam ser exploradas para o desenvolvimento de intervenções direcionadas”, acentuam. Adicionalmente, dados experimentais mostram que o tratamento com probióticos após traumatismo cranioencefálico induziu neuroproteção específica ao sexo e alterou a produção de AGCC, ressaltando a importância do sexo como determinante da atividade metabólica microbiana.
“Em conjunto, esses achados reforçam a justificativa para o desenvolvimento de formulações probióticas e pós-bióticas estratificadas por sexo, que podem aumentar a eficácia e minimizar os efeitos adversos na prevenção e no tratamento de doenças crônicas”, complementam. Isso significa que diferentes perfis de microbiota estão associados ao sexo. Entretanto, o sexo não determina diretamente a composição da microbiota, e o papel dos cromossomos sexuais não deve ser superestimado.
A diversidade microbiana resulta de várias interações entre material genético, hormônios, hábitos alimentares e preferências de vida. No entanto, considerar o sexo como uma variável biológica pode abrir novas possibilidades para a prevenção e o manejo personalizados de doenças crônicas não transmissíveis, abrangendo a transição da pesquisa básica para a prática clínica na era da medicina de precisão. O artigo ‘the gut microbiota–sex–immunity axis in non-communicable diseases’ foi publicado em setembro de 2025 na revista internacional Life – doi: 10.3390/life15101510.

