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Consumo de laticínios e riscos cardiovasculares e ósseos

Escrito por: Elessandra Asevedo

A osteoporose e as doenças cardiovasculares foram consideradas independentes durante muito tempo. No entanto, numerosos estudos epidemiológicos forneceram evidências de uma ligação entre ambas. Isso se deve, em parte, a fatores de risco convencionais compartilhados como envelhecimento, tabagismo, inatividade física, diabetes, consumo de álcool e fatores dietéticos.

Contudo, um crescente conjunto de evidências biológicas e epidemiológicas indica que existem mecanismos fisiopatológicos comuns subjacentes a essas doenças que vão além dos fatores de risco compartilhados. Por exemplo, o consumo de laticínios tem recebido atenção especial devido à complexa relação com doenças crônicas. Esses alimentos são ricos em proteínas de alta qualidade, vitaminas e minerais como cálcio, potássio e magnésio.

No entanto, a relação entre o consumo de laticínios e os desfechos cardiovasculares e de saúde óssea permanece controversa, com resultados inconsistentes entre as metanálises existentes. Com base nisso, um grupo de pesquisadores realizou um estudo para avaliar e sintetizar sistematicamente as evidências publicadas sobre o tema. Além disso, realizaram análises atualizadas incorporando pesquisas de coorte prospectivos divulgadas recentemente.

Publicado na revista Nutrients, o artigo ‘Dairy consumption and risk of cardiovascular and bone health outcomes in adults: an umbrella review and updated meta-analyses’ fez uma revisão sistemática de estudos publicados até abril de 2024. Esses artigos trazem desfechos cardiovasculares e de saúde óssea utilizando as diretrizes Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). A revisão incluiu metanálises que avaliaram a ingestão de laticínios em geral como leite, iogurte, queijo e manteiga.

Baixo teor de gordura

De modo geral, um maior consumo de laticínios, como leite e iogurte, foi associado a reduções modestas, porém estatisticamente significativas, no risco de doenças cardiovasculares – particularmente de acidente vascular cerebral (AVC) e hipertensão. “Tanto os laticínios com alto teor de gordura quanto aqueles com baixo teor de gordura apresentaram associação inversa com o risco de AVC, enquanto os laticínios com baixo teor de gordura demonstraram uma associação protetora contra a hipertensão”, relatam os autores. No entanto, os resultados para doença coronariana foram mais heterogêneos.

Embora o consumo de leite tenha apresentado uma leve associação com o aumento do risco de hipertensão, nenhuma associação significativa foi observada para laticínios em geral, iogurte ou manteiga. Em contrapartida, as evidências que relacionam o consumo de laticínios a desfechos de saúde óssea permanecem inconclusivas.

Densidade mineral óssea

Embora diversos estudos sugiram efeitos benéficos dos laticínios, especialmente do leite, na densidade mineral óssea, no risco de osteoporose e no metabolismo ósseo, as associações com o risco de fraturas, particularmente de quadril, foram inconsistentes. De acordo com os pesquisadores, o queijo e iogurte pareceram ter um efeito protetor mais consistente em algumas análises, mas o conjunto de evidências não sustenta um efeito protetor definitivo da ingestão de laticínios contra fraturas.

“É importante salientar que, como as doenças cardiovasculares e a osteoporose partilham vários fatores de risco e mecanismos subjacentes comuns, como inflamação, estresse oxidativo e desregulação metabólica”, pontuam. Portanto, é plausível que os produtos lácteos exerçam efeitos protetores em ambas as condições através de vias biológicas sobrepostas.

Esses achados enfatizam a importância de distinguir entre diferentes tipos de laticínios, como leite, iogurte e manteiga, bem como pelo teor de gordura. Assim, as orientações dietéticas devem enfatizar o consumo de laticínios com baixo teor de gordura, minimizando os potenciais malefícios relacionados à gordura saturada. “Adaptar as recomendações dessa forma pode ajudar a otimizar os efeitos protetores do consumo de laticínios em diversos domínios da saúde”, finalizam.

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