Muito além de diversão, a brincadeira é uma das principais ferramentas para o desenvolvimento infantil, tanto emocional quanto social. Isso porque o ato de brincar é considerado por especialistas um verdadeiro laboratório da vida, no qual as crianças aprendem a lidar com sentimentos, frustrações, conquistas e relacionamentos. As brincadeiras de faz de conta, jogos em grupo e até atividades físicas simples, como correr ou pular corda, ajudam a entender regras, compartilhar, esperar a vez e lidar com perdas.
De acordo com a psicóloga e neuropsicóloga Tatiana Serra, a inteligência emocional – tão valorizada nos adultos – começa a ser construída na infância, e é no brincar que a criança ensaia situações do mundo real de forma segura. “Quando a criança perde em um jogo, por exemplo, vivencia a frustração e, com a mediação de um adulto, pode aprender a lidar com esse sentimento de forma saudável. Isso é inteligência emocional em formação”, destaca.
A neurociência aponta que o brincar ativa áreas cerebrais ligadas à criatividade, à memória e à empatia. E as crianças que têm espaço para brincar livremente, sem excesso de direcionamentos ou tecnologia, desenvolvem maior autonomia e capacidade de resolver problemas. “Em tempos de telas, é fundamental que pais e responsáveis se envolvam nas brincadeiras”, orienta a especialista.
Método Montessori
Na perspectiva pedagógica, o brincar também é parte central do crescimento durante o desenvolvimento infantil. Para a pedagoga Mariana Ruske, fundadora da Senses Montessori School, a infância é um momento em que aprender e brincar se entrelaçam. No método Montessori isso acontece de três formas principais. A primeira é quando há o brincar livre, ou seja, quando a criança explora de forma espontânea, criando regras próprias e deixando a imaginação fluir.
Outra forma é o brincar estruturado, em que há um direcionamento leve como jogos de construção ou de regras simples. E, por fim, o trabalho, conceito usado por Montessori para descrever a dedicação intensa e prazerosa em atividades escolhidas pela própria criança, como cuidar de uma planta ou organizar blocos.
Segundo a neuropsicóloga, essas três experiências se complementam. O brincar livre, por exemplo, abre portas para a criatividade, enquanto o estruturado desenvolve habilidades específicas e o trabalho fortalece a concentração e a autonomia. “Tudo isso ajuda a criança a construir disciplina interna e autoestima de forma natural”, explica.
Brincadeiras antigas
A sugestão do médico neurocirurgião Fernando Gomes é voltar no tempo das brincadeiras de antigamente como amarelinha, pega-pega, par ou ímpar e telefone sem fio, entre outras, para compreender como podem estimular os mais diversos tipos de inteligência. “Ao compararmos essas brincadeiras com o mundo atual, que é muito mais on-line, conseguimos avaliar o quanto o período das telas pode comprometer o desenvolvimento do cérebro”, pontua o professor livre docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM/USP).
Algumas brincadeiras simples e fáceis de produzir e de brincar podem auxiliar na educação das crianças. De acordo com o neurocirurgião, cada uma estimula um tipo de inteligência específica e as habilidades mentais. Além disso, ter um pet trabalha a empatia, desenvolve sentimentos e emoções e aquece as habilidades sociais.
Vamos brincar?
- Stop, telefone sem fio ou trava língua – A inteligência linguística e comunicação são estimuladas para potencializar matérias escolares como português e inglês.
- O que, o que é? Pedra, papel e tesoura, par ou ímpar e jogo da velha – Promovem a inteligência lógica da matemática e melhoram as habilidades com fazer contas.
- Esconde-esconde ou bola de gude – Tudo o que engloba a inteligência espacial e noção de espaço melhoram o conhecimento para andar de bicicleta e até dirigir no futuro. Estruturas profundas do cérebro, como cerebelo e gânglios da base, são utilizadas nestas brincadeiras.
- Perna de lata, jogar amarelinha, cama de gato, pular corda, elástico, andar de carrinho de rolimã ou de pega-pega – Como mexer com o corpo físico desperta a habilidade motora, a inteligência corporal sinestésica é trabalhada nessas brincadeiras. Além disso, queimam calorias e podem ser uma boa introdução ao esporte.
- Bater bafo (bater figurinhas) – Estimulam a inteligência emocional.
- Colecionar figurinhas – A memória, a atenção e outras habilidades sociais são saudavelmente provocadas com esse hábito que aciona o circuito do prazer.
- Empinar pipa – Essa brincadeira envolve vários processos como a psicomotricidade ao montar a pipa e a compreensão do mundo físico quando o vento faz a pipa voar. Assim, a inteligência física e interpessoal são estimuladas.
- Vivo ou morto, gato-mia e passa anel – Ponderar atitudes provocam o controle inibitório nestas brincadeiras, que ainda estimulam a atenção.

