Nos Estados Unidos, as sobreviventes de câncer de endométrio formam o segundo maior grupo de ex-pacientes de câncer feminino – depois do câncer de mama. Nas últimas décadas, a incidência e a mortalidade por esse tipo de câncer aumentaram, com disparidades raciais acentuadas entre mulheres negras e brancas. As pacientes negras são diagnosticadas com mais frequência em estágios mais avançados, com tumores que apresentam características de mau prognóstico, exigindo terapias oncológicas mais intensivas.
Estudos mostram que as sobreviventes de câncer de endométrio podem apresentar alterações no microbioma devido ao tratamento oncológico e outros fatores, lembrando que a microbiota desempenha um papel crucial na manutenção do bom funcionamento do organismo. Um microbioma intestinal mais diverso, geralmente, indica um ambiente mais saudável. Enquanto isso, uma menor diversidade do microbioma vaginal, especificamente do gênero Lactobacillus, está associada a desfechos de saúde mais favoráveis.
As alterações na composição do microbioma relacionadas ao tratamento do câncer têm o potencial de contribuir para os resultados do câncer endometrial durante a sobrevida. Isso inclui preocupações relatadas pelas pacientes sobre a função intestinal e sexual e disparidades raciais no risco de recorrência. Com base nisso, pesquisadores dos Estados Unidos realizaram um estudo piloto para avaliar a variação potencial nas comunidades do microbioma fecal e de ex-pacientes de câncer de endométrio.
Influência do tratamento
A pesquisa selecionou sobreviventes de câncer de endométrio participantes do Carolina Endometrial Cancer Study (CECS) – uma coorte populacional em andamento na Carolina do Norte – que realizaram a autocoleta de amostras vaginais e fecais. Além disso, as participantes responderam questionários com informações sobre dados demográficos, função sexual e intestinal, assim como perspectivas sobre o processo. As características do tumor e as informações sobre o tratamento do câncer foram obtidas a partir de prontuários médicos. Os perfis da microbiota foram caracterizados por sequenciamento de amplicons do rRNA 16S bacteriano.
O estudo mostrou que a diversidade microbiana fecal e vaginal não apresentou variação estatisticamente significativa entre as raças, embora os tipos com predominância de Lactobacillus tenham se mostrado menos comuns entre as participantes negras em comparação com as brancas. As participantes submetidas apenas a tratamento cirúrgico apresentaram comunidades de microbiotas vaginais menos diversas, o que pode indicar melhor saúde vaginal.
De acordo com os pesquisadores, a diversidade microbiana fecal não pareceu estar relacionada ao status do tratamento do câncer mais de um ano após o diagnóstico. A composição microbiana fecal e vaginal não apresentou forte correlação com a função intestinal ou sexual relatada pelas pacientes, respectivamente. “A diversidade alfa e beta das amostras do microbioma vaginal variou de acordo com o tratamento do câncer, com maior diversidade microbiana após quimioterapia ou radioterapia em comparação com a cirurgia isolada”, explicam. Essa diversidade compõe métricas ecológicas usadas para descrever a variedade e a composição de microrganismos em diferentes escalas.
No grupo submetido apenas à cirurgia, 63% das amostras apresentaram predominância de Lactobacillus – em comparação com 17% no grupo submetido apenas à quimioterapia ou radioterapia. A diversidade do microbioma fecal não variou de acordo com o tratamento do câncer. Além disso, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas na diversidade alfa ou beta das comunidades do microbioma vaginal ou fecal entre os subgrupos raciais ou por função sexual ou intestinal. O estudo ‘Stool and vaginal microbiome profiles patterns among Black and White endometrial cancer survivors: A pilot study in North Carolina’ foi publicado no periódico científico Plos One em janeiro de 2026 – doi: 10.1371/journal.pone.0336772.

