A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST) causada pela bactéria Treponema pallidum. Apesar de ser uma doença curável e de fácil diagnóstico, quando não tratada pode evoluir para estágios graves, afetando o coração e o sistema nervoso. Conhecida como uma ‘grande imitadora’ devido à sua capacidade de apresentar sintomas variados ou até mesmo ausentes, a doença segue cercada por desinformação e estigma. Mesmo com os avanços na Medicina, a sífilis configura um grave e persistente desafio de saúde pública.
No Brasil, dados do Ministério da Saúde registraram 1.538.525 de casos de sífilis adquirida no período entre 2010 e junho de 2024. O ápice foi em 2023, com uma taxa de série histórica de 113,8 casos por 100 mil habitantes. De acordo com o médico infectologista Alberto Chebabo, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o problema se estende de forma crítica à saúde materno-infantil. Desde 2025, a sífilis em gestantes acumulou cerca de 713 mil casos.
“O resultado direto da falha na prevenção e tratamento materno é a sífilis congênita, que registrou cerca de 345 mil casos em menores de um ano desde 1999”, ressalta. Só em 2023, o Brasil atingiu um coeficiente de mortalidade de 7,7 óbitos por 100 mil nascidos vivos, evidenciando que a doença continua a ter um impacto devastador na vida dos bebês.
Rastreamento
O médico afirma que o acesso ao diagnóstico e ao tratamento é fundamental. “A ampliação de métodos de detecção com testes que oferecem alta precisão é crucial para identificar a presença de anticorpos da sífilis no sangue, permitindo um diagnóstico rápido e o início do tratamento adequado”, comenta. Essa ação é especialmente importante em contextos de triagem e no pré-natal. Para combater a desinformação, o infectologista Alberto Chebabo esclarece as dúvidas mais comuns sobre a infecção.
Mitos e verdades
- A sífilis é transmitida apenas por meio de múltiplos parceiros ou sexo desprotegido?
A prática sexual desprotegida e com múltiplos parceiros aumenta o risco. Basta uma única exposição sexual (vaginal, anal ou oral) com uma pessoa infectada para que a infecção dessa doença sexualmente transmissível possa ocorrer. Mas há outros meios de transmissão. Por exemplo, a sífilis pode ser transmitida da mãe para o bebê durante a gravidez (transmissão vertical) ou o parto. Em casos raros, também pode haver transmissão por transfusão de sangue ou contato direto com lesões ativas, conhecidas como cancro duro.
- Se o cancro duro (a ferida inicial) sumir sozinho, estou curado?
Mito. Na fase primária, a ferida é geralmente indolor e desaparece espontaneamente em algumas semanas. Entretanto, o desaparecimento da lesão não significa cura. A bactéria continua ativa e a doença progride para fases mais avançadas (secundária e latente), que podem demorar anos para manifestar complicações graves, a exemplo das neurológicas.
- Posso contrair sífilis novamente mesmo após ter sido tratado?
Verdade. Não existe imunidade permanente contra a sífilis. O tratamento cura a infecção atual, mas a pessoa pode ser reinfectada várias vezes ao longo da vida se for exposta novamente à bactéria. Por isso, a prevenção contínua com o uso de preservativos é fundamental, mesmo após o tratamento.
- A sífilis é uma doença difícil de diagnosticar?
Mito. Devido à sua capacidade de imitar outras doenças e de passar por uma fase latente (sem sintomas), a sífilis pode ser um desafio clínico. Contudo, o diagnóstico é muito acessível e eficaz. “A testagem de anticorpos, especialmente em larga escala em laboratórios e hospitais, permite identificar com alta precisão a presença da infecção”, relata. O médico reforça a importância da triagem para que, mesmo na ausência de sintomas, a infecção seja detectada.
- O tratamento da sífilis é simples e eficaz?
Verdade. Curável, o tratamento padrão (especialmente se diagnosticado nas fases iniciais) é realizado com a penicilina benzatina, um antibiótico acessível e altamente eficaz. Para o sucesso do tratamento, o paciente deve seguir rigorosamente a dosagem e o esquema indicado pelo médico, além de exames de acompanhamento, pois a cura exige monitoramento.
- Se a gestante estiver com sífilis, o bebê sempre terá sequelas graves?
Mito. Não é sempre, mas o risco é altíssimo. A sífilis não tratada na gestação é uma ameaça gravíssima, podendo levar a consequências devastadoras para o bebê. Entre os exemplos estão aborto espontâneo, natimorto, prematuridade, baixo peso ao nascer, surdez, cegueira, problemas neurológicos graves e até a morte neonatal. Portanto, o tratamento da gestante com penicilina é a única e mais eficaz forma de prevenir a sífilis congênita e deve ser iniciado o mais rápido possível no pré-natal.

