As corridas de rua nunca reuniram tantos participantes acima dos 40 e 50 anos como agora. Em busca de qualidade de vida, longevidade e bem-estar, os chamados corredores masters ganharam espaço nas pistas e mostram que o envelhecimento não precisa ser um obstáculo para a prática esportiva. Com o passar dos anos, porém, algumas mudanças fisiológicas exigem adaptações no treinamento e maior atenção à recuperação para preservar músculos, tendões e articulações.
Embora a corrida seja frequentemente associada ao desgaste das articulações, evidências científicas mostram que a idade, isoladamente, não impede a continuidade da atividade física. Para o médico Guilherme Fernandes, especialista em Medicina Esportiva e Medicina Regenerativa, o desafio está em compreender as transformações do organismo, realizar adaptações no treinamento – carga e intensidade – e adotar estratégias que favoreçam a recuperação.
De acordo com o especialista, que é assistente do Ambulatório de Medicina Regenerativa da Disciplina de Medicina Esportiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), o corpo continua respondendo aos estímulos do exercício depois dos 40 e dos 50 anos, mas a recuperação se torna mais lenta e a prevenção ganha um papel ainda mais importante. “Por isso, cuidar da força muscular, do metabolismo, do sono e da saúde dos tendões faz diferença tanto para evitar lesões quanto para manter a performance ao longo dos anos”, orienta.
Além disso, parte das lesões que afastam corredores dos treinos não surgem de maneira repentina. Em muitos casos, podem ser consequência do acúmulo de pequenas sobrecargas ao longo do tempo, principalmente quando o treinamento não é acompanhado de recuperação suficiente. Tendinopatias, dores articulares e lesões musculares estão entre os problemas que podem afetar essa faixa etária. “Em muitos casos, esses problemas podem ser reduzidos com planejamento e adaptações no treinamento, fortalecimento e acompanhamento profissional”, assegura.
Medicina regenerativa
Para os corredores masters, que mantêm a prática esportiva mesmo com o avanço da idade, a Medicina Regenerativa também pode ser uma aliada. “Por exemplo, tratamentos com ortobiológicos como o plasma rico em plaquetas (PRP) têm sido estudados para o tratamento e a recuperação de determinadas lesões musculoesqueléticas”, comenta o especialista. Os resultados, entretanto, ainda variam conforme a condição tratada. Além disso, essas terapias devem ser indicadas de forma criteriosa, com base em evidências científicas e sem promessas não comprovadas.
A tecnologia também tem ampliado as possibilidades de individualização do treinamento. Monitoramento contínuo da glicemia, dispositivos vestíveis (wearables) e acompanhamento de indicadores relacionados à recuperação permitem reunir mais informações sobre a resposta do organismo ao exercício. “Esses recursos podem ser particularmente úteis para quem mantém volumes elevados de treinamento e precisa equilibrar desempenho, recuperação e longevidade esportiva”, conclui.

