Conhecidos como chips hormonais ou pellets, os implantes hormonais são pequenos dispositivos colocados sob a pele que liberam hormônios de forma contínua por vários meses. Embora possam ser indicados em situações específicas, como na terapia hormonal da menopausa, esses implantes passaram a ser utilizados para promessas de emagrecimento e rejuvenescimento. No entanto, o uso indiscriminado desses dispositivos tem despertado preocupação de especialistas, sobretudo após relatos de trombose, lesão renal e internações em unidade de terapia intensiva (UTI). Esses episódios reacendem o debate sobre a segurança dessas terapias e a falta de evidências científicas para muitas de suas indicações.
Os implantes hormonais consistem em pequenos cilindros inseridos sob a pele que liberam gradualmente substâncias como testosterona, estradiol e gestrinona por períodos que podem variar entre seis e nove meses. De acordo com o endocrinologista Ramon Marcelino, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP), esses dispositivos podem ser utilizados em situações específicas desde que haja indicação clínica, escolha adequada do hormônio e acompanhamento médico.
A preocupação, porém, está no uso desses dispositivos para finalidades que extrapolam as indicações tradicionais, como emagrecimento, melhora da libido, ganho de massa muscular, estética e antienvelhecimento. O endocrinologista enfatiza que o debate sobre essas terapias precisa fugir dos extremos, já que a via de administração, por si só, não representa o principal problema. O alerta está na banalização do uso para objetivos sem respaldo científico e na dificuldade de interromper a liberação hormonal caso ocorram complicações.
O especialista destaca que relatos recentes de pacientes com trombose, lesão renal e necessidade de internação em UTI após o uso dessas terapias ampliaram a preocupação sobre a segurança dos implantes hormonais. Embora a relação entre cada caso e o tratamento precise ser avaliada individualmente, esses episódios reforçam a importância de critérios mais rigorosos para indicação, acompanhamento e monitoramento dos pacientes.
Risco que permanece
Diferentemente de géis, adesivos ou comprimidos que podem ter o uso interrompido imediatamente, os implantes hormonais continuam liberando substâncias por meses após a inserção. “Nos modelos absorvíveis não há retirada possível e, nos inabsorvíveis, mesmo com remoção cirúrgica, parte do hormônio já foi liberada no organismo”, explica o especialista. Nesses casos, o manejo consiste em controlar as consequências clínicas até que o efeito hormonal diminua. Por isso, a limitação da reversibilidade deve ser considerada antes da indicação.
Segundo o endocrinologista, terapias reversíveis devem ser consideradas antes da indicação de um pellet hormonal, principalmente para mulheres que nunca fizeram reposição hormonal. A avaliação deve considerar o histórico clínico, os sintomas apresentados e os objetivos do tratamento, já que a resposta aos hormônios varia entre as pacientes. “As opções transdérmicas, como géis e adesivos, permitem ajustes de dose e suspensão rápida quando necessário, oferecendo maior controle e segurança do tratamento”, destaca.
Da indicação ao excesso
Embora tenha ganhado visibilidade nos últimos anos, o uso de implantes hormonais não é uma prática recente. A utilização clínica desses dispositivos começou a se expandir a partir da década de 1940, principalmente para o tratamento de sintomas relacionados à menopausa. Entretanto, a forma como são empregados pode variar entre países, de acordo com as indicações e os critérios adotados.
No Reino Unido, por exemplo, os implantes costumam ser reservados para casos selecionados, como pacientes com falha terapêutica, baixa adesão ou dificuldade de absorção por outras vias. Já no Brasil, observa-se uma expansão acelerada associada a promessas de melhora da libido, emagrecimento, estética e antienvelhecimento. “Existe hoje uma banalização do uso de testosterona e gestrinona em mulheres, frequentemente em doses suprafisiológicas e combinações pouco estudadas”, alerta o especialista.
Outro ponto de preocupação é que muitas pacientes não sabem que estão sendo submetidas a tratamentos off-label, ou seja, fora das indicações previstas em bula. Embora essa prática possa fazer parte da Medicina, exige consentimento esclarecido, acompanhamento rigoroso e uma discussão transparente sobre riscos, benefícios e limitações.
Apesar das críticas ao uso indiscriminado, os implantes hormonais continuam sendo estudados pela comunidade científica. Pesquisas avaliam aspectos como farmacocinética, farmacodinâmica e segurança desses dispositivos, buscando compreender melhor suas aplicações, os benefícios e possíveis riscos associados ao tratamento.

