A dengue faz parte de um grupo de doenças denominadas arboviroses, que se caracterizam por serem causadas por vírus transmitidos por vetores artrópodes. No Brasil, o vetor da dengue é a fêmea do mosquito Aedes aegypti. Atualmente, a enfermidade ainda representa um desafio significativo para a saúde pública em regiões tropicais. Além disso, é considerada uma ameaça global devido à expansão geográfica e ao aumento da incidência em decorrência das mudanças climáticas, reforçando a importância da vacina contra a dengue.
De acordo com o Ministério da Saúde, aspectos como a urbanização, o crescimento desordenado da população, o saneamento básico deficitário e os fatores climáticos mantêm as condições favoráveis para a presença do vetor, com reflexos na dinâmica de transmissão desses arbovírus. A doença possui padrão sazonal, com aumento do número de casos e o risco para epidemias – principalmente entre os meses de outubro de um ano a maio do ano seguinte.
Apesar da disponibilidade de vacinas tetravalentes contra a dengue, as evidências sobre a eficácia no mundo real são escassas. Dentro deste contexto, um estudo internacional inédito comprovou a eficácia da vacina TAK-003 em adolescentes. O trabalho foi conduzido no Brasil por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) durante a epidemia histórica de dengue que atingiu o Brasil em 2024 e, segundo o Ministério da Saúde, matou mais de 6 mil pessoas.
Eficácia comprovada
A vacina contra a dengue foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para pessoas de 4 a 60 anos. O imunizante foi introduzido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2023, com atual aplicação focada inicialmente em adolescentes (10 a 14 anos). Este estudo caso-controle com teste negativo foi conduzido entre adolescentes de 10 a 14 anos no Estado de São Paulo, de 20 de fevereiro a 31 de dezembro de 2024.
Os casos foram definidos como indivíduos com doença febril aguda e dengue confirmada virologicamente. Os controles eram indivíduos com doença febril aguda que testaram negativo para dengue. Em ambos os grupos, a confirmação foi baseada em teste de antígeno NS1 ou RT-PCR em até cinco dias após o início dos sintomas. Os dados foram obtidos dos bancos de dados nacionais de vigilância da dengue e do registro de vacinação da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.
Detalhamento
De 128.358 testes potencialmente elegíveis, 92.621 foram incluídos na análise, sendo 43.873 de casos e 48.748 de controles. A eficácia ajustada da vacina foi de 50,2% para a primeira dose e 61,7% para a segunda dose contra dengue sintomática. Além disso, foi de 67,5% para a primeira dose contra hospitalização por dengue. “A proteção contra a doença sintomática iniciou-se 14 dias após a primeira dose, mas diminuiu para 49,7% após 90 dias da primeira dose”, explica o professor da Faculdade de Medicina da UFMS, Júlio Croda, coordenador do estudo.
As análises de sensibilidade demonstraram a robustez dessas descobertas, embora as estimativas para a segunda dose tenham sido limitadas pelo pequeno número de eventos observados. Com os dados, a vacina TAK-003 mostrou-se eficaz contra a dengue sintomática e a hospitalização pela doença em adolescentes durante um grande surto causado predominantemente pelos sorotipos 1 e 2 do vírus da dengue. “Esses achados reforçam a importância de evidências do mundo real para orientar as estratégias de vacinação contra a dengue, particularmente em contextos de alta transmissão e durante o uso em situações de emergência”, finaliza o especialista.

