A quimioterapia é uma das principais estratégias de tratamento para a maioria dos tumores, particularmente aqueles em estágio avançado ou com resistência à terapia molecular ou imunoterapia. Apesar do potencial benéfico, esse protocolo terapêutico pode estar associado a manifestações de toxicidade gastrointestinal induzida por quimioterapia (CIGT, na sigla em inglês), incluindo diarreia e constipação induzidas por quimioterapia – CID e CIC na sigla em inglês, respectivamente.
Por existirem diferentes critérios de classificação e estratégias para a prevenção e tratamento da CIGT, pesquisadores chineses analisaram estudos sobre os mecanismos fisiopatológicos, apresentações clínicas e estratégias terapêuticas dessas manifestações. Assim, acreditam ser possível enriquecer as referências acessíveis e ajudar os médicos na prevenção e no controle desses sintomas.
A toxicidade gastrointestinal induzida por quimioterapia é uma complicação comum. A incidência e gravidade estão associadas ao tipo de agente quimioterápico, dose, modo de administração e características basais dos pacientes. De acordo com os autores, a CIGT se manifesta de várias maneiras, incluindo diarreia, constipação, náusea, vômito, perda de apetite e outros sintomas clínicos. Nos casos graves, pode resultar em desidratação, distúrbios eletrolíticos e desnutrição, entre outros sintomas, impactando significativamente o quadro de saúde e a qualidade de vida.
Embora os agentes quimioterápicos destruam células tumorais, também produzem efeitos colaterais tóxicos em células imunes normais, levando a uma diminuição significativa na imunidade em pacientes com câncer. Dessa forma, as drogas quimioterápicas também danificam células epiteliais intestinais e levam à disbiose. “Os sintomas de diarreia e constipação em pacientes oncológicos podem ser desencadeados por uma série de fatores”, observam os autores.
Entre eles estão diferenças individuais nos hábitos de defecação, juntamente com mudanças ambientais pós-hospitalização; sinais de ansiedade e depressão; repouso prolongado no leito e atividade insuficiente. “Esses fatores podem levar à negligência de gatilhos farmacogenéticos”, alertam os cientistas. Condições gastrointestinais preexistentes, como a doença inflamatória intestinal, também podem alterar significativamente a gravidade e a apresentação de diarreia e constipação induzida por quimioterapia.
Inibidores
Além da toxicidade gastrointestinal associada à quimioterapia, os autores relatam que os inibidores da tirosina quinase – receptor relacionado ao crescimento epidérmico – também estão associados à toxicidade a medicamentos. Por exemplo, a constipação induzida por quimioterapia foi o evento adverso mais comum em um estudo clínico de fase III de ibrutinibe (Imbruvica) em combinação com rituximabe (Rituxan) para macroglobulinemia de Waldenström. Outros achados indicam que a CIC é prevalente entre pacientes que recebem opioides para dor oncológica.
Os autores comentam que sintomas gastrointestinais em pacientes com câncer que recebem opioides, juntamente com radioterapia, frequentemente levam a reduções de dose, atrasos e descontinuação da terapia. Dessa forma, sintomas como náuseas, distensão abdominal, vômitos, constipação e diarreia induzidos pela quimioterapia podem persistir por até 10 anos após o tratamento. “Portanto, uma maior atenção é necessária para o manejo da CIGT”, alertam. O artigo ‘Restore intestinal steady-state: new advances in the clinical management of chemotherapy-associated diarrhea and constipation’ foi publicado em março de 2025 no periódico Springer Nature Link – doi: 10.1007/s10735-025-10367-w.
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Desafios no controle da toxicidade gastrointestinal induzida por quimioterapia
Apesar dos avanços nos cuidados de suporte, ainda não existe uma abordagem universalmente eficaz para equilibrar o tratamento dessa condição
Fernanda Ortiz
Microbioma intestinal
Diarreia
Constipação
Toxicidade gastrointestinal
Os resultados da revisão científica ‘Restore intestinal steady-state: new advances in the clinical management of chemotherapy-associated diarrhea and constipation’, desenvolvida por cientistas chineses, mostraram a necessidade de ter maior atenção para o manejo da toxicidade gastrointestinal induzida por quimioterapia (CIGT, na sigla em inglês). De acordo com os autores, apesar dos avanços nos cuidados de suporte, ainda não existe uma abordagem universalmente eficaz para equilibrar o tratamento de duas condições comuns: diarreia e constipação induzidas por quimioterapia (CID e CIC na sigla em inglês, respectivamente).
“Ainda que as intervenções farmacológicas atuais ofereçam alívio, os medicamentos projetados para combater a constipação podem inadvertidamente exacerbar a diarreia”, alertam os autores. Enquanto isso, aqueles medicamentos que visam combater a diarreia podem, às vezes, levar à constipação grave. Mesmo com os avanços, ainda existem lacunas substanciais na decifração completa das vias moleculares envolvidas na CIGT.
De acordo com os autores, também ainda há dúvidas especificamente sobre os papéis do microbioma intestinal e das respostas inflamatórias nessas duas condições causadas pela toxicidade gastrointestinal induzida por quimioterapia. “Essas lacunas demandam novas investigações referentes ao desenvolvimento e a mitigação desses efeitos tóxicos”, sinalizam. Assim, a expectativa está no desenvolvimento de abordagens de tratamento mais personalizadas, que tenham como objetivo identificar e integrar fatores individuais do paciente à quimioterapia. Dentre eles estão diversidade do microbioma, taxa metabólica, predisposições genéticas e respostas fisiológicas gerais.
“Ao personalizar os tratamentos com base nas características únicas dos pacientes, os médicos poderão gerenciar melhor os efeitos colaterais complexos da quimioterapia, minimizando o risco de agravar uma condição durante o tratamento de outra”, destacam os autores. Portanto, o futuro do tratamento de CID e CIC provavelmente envolverá uma abordagem multidisciplinar, combinando insights de oncologia, farmacologia, genética e cuidados centrados no paciente. O artigo foi publicado em março de 2025 no periódico Springer Nature Link

