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Carcinoma epidermóide oral

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Alterações em microrganismos podem ser ligados ao câncer

Escrito por: Fernanda Ortiz

O carcinoma epidermoide oral é o tipo mais comum de câncer bucal. Caracterizado por alta agressividade e capacidade de evoluir para metástases linfonodais ainda no estágio inicial, se desenvolve a partir de células achatadas que revestem a cavidade oral. De acordo com achados na literatura, as alterações da microbiota dessa região parecem ter estreita relação com o desenvolvimento tumoral. Assim, pesquisadores chineses analisaram alterações no microbioma oral e nos níveis de metabólitos em pacientes diagnosticados com a neoplasia para investigar o papel desse ecossistema na carcinogênese e seus possíveis benefícios para a prevenção e tratamento.

Para o estudo foram avaliadas amostras de saliva de 40 pacientes com diagnóstico de carcinoma epidermóide oral e 39 controles saudáveis. Todos os participantes, sem diferenças significativas em sexo, idade, peso, altura ou índice de massa corporal (IMC), foram recrutados no Primeiro Hospital Afiliado da Universidade de Zhengzhou, na China. De acordo com os autores, o microbioma foi analisado por sequenciamento do gene 16S rDNA. Já o metaboloma foi detectado por Cromatografia Líquida-Espectrometria de Massa (LC-MS) com rastreabilidade de metabólitos, usando a plataforma MetOrigin.

Análises

No estudo de microbiômica, o índice de Simpson (medida que quantifica a biodiversidade de uma comunidade) do grupo com a neoplasia foi significativamente maior do que o do grupo controle. Além disso, a diversidade de β (Beta) mostrou uma diferença significativa entre os grupos, o que é consistente com estudos anteriores. De acordo com os autores, tais dados sugerem que alterações no microambiente oral em estados de câncer podem levar a uma diminuição na diversidade do microbioma. “Isso ocorre através de respostas inflamatórias ou imunossupressão, indicando que as alterações no microambiente oral podem desempenhar papel importante na patogênese do câncer bucal”, descrevem.

A análise das amostras identificou que os gêneros CapnocytophagaAggregatibacter e Moraxella –associados a diversas doenças em humanos, incluindo infeções da cavidade oral e do trato respiratório – foram significativamente aumentados no nível do gênero no grupo com a neoplasia. Este achado é consistente com estudos anteriores que confirmaram que a bactéria Capnocytophaga (particularmente a espécie Capnocytophaga gingivalis) pode estar envolvida em tumores nesse tipo de câncer, promovendo a invasão e migração de células cancerosas.

Metabólitos

Durante a análise metabolômica, os pesquisadores identificaram 36 metabólitos diferencialmente abundantes significativamente regulados negativamente. Ao mesmo tempo, a docosanamida foi regulada positivamente no grupo de câncer bucal. Um total de seis metabólitos específicos de bactérias com diferenças significativas foram obtidos neste estudo, entre eles a espermina. Trata-se de um metabólito da poliamina que, quando em níveis elevados, atua na transformação e progressão do tumor. “Identificamos, ainda, uma regulação significativamente negativa nos níveis salivares de espermina (poliamina natural) no grupo com a neoplasia em comparação com o controle”, destacam os autores.

O mesmo ocorreu com o indol (intermediário no metabolismo do triptofano, que exerce efeito oncogênico nas células de determinados tipos de câncer), que foi significativamente reduzido na saliva oral do grupo neoplasia, sugerindo potencial efeito inibitório. Além disso, diagramas de redes lineares nos níveis de filo e gênero revelaram que o indol estava localizado no microbioma diferencial no centro da correlação entre metabólitos diferencialmente abundantes. No entanto, o mecanismo do indol e seus derivados no desenvolvimento do carcinoma espinocelular oral (CEC) não foi investigado.

Conclusão

De acordo com os autores, ao identificar diferenças significativas nos níveis de microbioma de gênero e de metabólitos marcados por indóis, o estudo fornece insights potencialmente valiosos para o diagnóstico e tratamento do carcinoma epidermoide oral. O artigo ‘Potential changes in microorganisms and metabolites associated with oral cancer: a preliminary study foi publicado em abril de 2025 na revista Springer Nature Link.

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