Descrita como a bactéria mais predominante na microbiota oral, a Methanobrevibacter oralis (M. oralis) foi inicialmente isolada de amostras de placa dentária de indivíduos aparentemente saudáveis em 1994. Embora tenha sido encontrada em condições de disbiose, como periodontite e em outras patologias orais e extraorais, a compreensão da sua patogenicidade permanece limitada, particularmente no que diz respeito às suas características fenotípicas, genômicas e metabólicas. Com o objetivo de abrir caminho para futuras investigações, pesquisadores da Aix Marseille Université, da França, conduziram uma revisão científica que resume o conhecimento atual sobre a espécie M. oralis. O artigo mostra sua prevalência e associação com outros organismos e patologias no contexto da disbiose oral.
A Methanobrevibacter oralis habita predominantemente a cavidade oral humana, datando do período Paleolítico. Com o passar do tempo, sua prevalência possivelmente foi influenciada por mudanças sociais, como o consumo de açúcar a partir do século XVIII. Pelo fato de ter sido isolada da cavidade oral de dois indivíduos saudáveis, a primeira hipótese era de que a bactéria poderia ser um membro da microbiota oral normal. Mais tarde, foi detectada no biofilme subgengival de dentes e implantes saudáveis, e cultivada na saliva de pacientes sem doença periodontal. Entretanto, também foi correlacionada com o tabagismo e parece ocupar nichos orais em situações patológicas, a exemplo de placa dentária subgengival de pacientes com periodontite ou peri-implantite, inflamação e infecção pulpar.
“Diante desses achados, a M. oralis parece ser a espécie mais prevalente associada à mucosa oral, seja em situações saudáveis, patológicas ou como um microrganismo planctônico na saliva”, observam os pesquisadores. Entretanto, outros artigos destacam que a bactéria não está restrita à cavidade oral, pois já foi detectada na microbiota intestinal, no trato respiratório, na mucosa vaginal e isolada de fezes humanas e no leite. Em particular, sua adaptação ao intestino humano não foi claramente definida, uma vez que outros estudos não relataram a presença de M. oralis ou a encontraram em baixa prevalência no ambiente intestinal.
Situações patológicas
De acordo com os pesquisadores, o papel da Methanobrevibacter oralis em doenças periodontais permanece ambíguo, levantando a questão de se é um verdadeiro patógeno ou meramente uma presença oportunista. “Alguns estudos mostram uma prevalência maior de M. oralis em pacientes com periodontite em comparação a indivíduos saudáveis. Entretanto, sua presença em locais saudáveis sugere uma relação mais complexa”, afirmam. Assim, a correlação entre a carga de Methanobrevibacter oralis e a gravidade da doença indica um potencial envolvimento patogênico, mas sua detecção predominantemente em indivíduos doentes destaca a necessidade de mais pesquisas.
Apesar de estar presente em outras localizações extraorais, as implicações sistêmicas da Methanobrevibacter oralis no que diz respeito à disseminação pela corrente sanguínea também requerem investigação mais aprofundada. Segundo os autores, um ponto positivo identificado na revisão é que já existem métodos limitados, porém validados, disponíveis para detectar e quantificar M. oralis em situações clínicas. “Se seu papel patogênico for confirmado no futuro, isso poderá impactar o tratamento dos pacientes, particularmente devido à sua resistência específica a antibióticos”, concluem. Pelas limitações do conhecimento atual sobre M. oralis, os autores evidenciam a necessidade de integrar a pesquisa sobre metanogênicos em estudos mais amplos, tanto na saúde bucal como no contexto de saúde geral. O artigo ‘Methanobrevibacter oralis: a comprehensive review’ foi publicado em 2024, no Journal of Oral Microbiology

