O câncer abrange mais de 100 tipos de doenças malignas que têm em comum o crescimento desordenado de células que podem invadir tecidos adjacentes ou órgãos à distância. Além de mutações genéticas, fatores ambientais estão associados ao aumento do risco de desenvolver a doença. Recentemente, pesquisadores chineses investigaram a relação entre a ingestão de microrganismos probióticos na dieta, a depressão e a mortalidade por câncer entre adultos nos Estados Unidos. Os resultados do estudo abrem uma nova perspectiva para motivar pacientes, profissionais da saúde e gestores públicos sobre a conscientização e implementação de iniciativas que melhorem os desfechos dos pacientes.
Sabe-se que uma dieta saudável pode reduzir o risco de desenvolver câncer e de mortalidade pela doença, e o consumo de microrganismos probióticos na dieta pode ser benéfico para a saúde humana. “Isso se deve à capacidade desses microrganismos de melhorar a função intestinal e reduzir a suscetibilidade a doenças, interagindo com a microbiota intestinal residente”, descrevem os pesquisadores. Os microrganismos probióticos estão presentes em uma variedade de alimentos, incluindo frutas com casca, vegetais e carnes. No entanto, a relação entre a ingestão na dieta e a mortalidade por câncer ainda não foi completamente investigada.
Outro fator relevante é que os sobreviventes de câncer enfrentam um risco aumentado de problemas de saúde mental ao longo do tempo. Achados na literatura científica mostram que esses indivíduos experimentam taxas mais altas de depressão, que frequentemente são associadas a piores resultados de sobrevida. Outras pesquisas indicam, ainda, que alimentos probióticos e fermentados contendo microrganismos probióticos podem aliviar os sintomas da depressão. “Diante dessas constatações, investigamos as associações independentes e combinadas da ingestão de microrganismos vivos na dieta e depressão com a mortalidade por todas as causas, incluindo doenças cardiovasculares”, explicam os autores.
Método
Para a realização desse estudo transversal, os pesquisadores utilizaram dados da Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (NHANES), dos Estados Unidos – de 2001 a 2018. A partir da classificação dos alimentos categorizados por seus níveis de microrganismos probióticos, e dos dados do questionário dietético, os participantes foram divididos em três grupos: baixa, média e alta ingestão de microrganismos vivos na dieta. Além disso, foi aplicado o Questionário de Saúde do Paciente-9 (PHQ-9) para avaliar os sintomas depressivos. “Nosso estudo examinou as associações independentes e conjuntas da ingestão de microrganismos vivos na dieta e depressão com os resultados de mortalidade em sobreviventes de câncer”, descrevem os autores.
Análise e resultados
Durante acompanhamento médio de 6,2 anos, os pesquisadores identificaram um total de 605 mortes por todas as causas entre os participantes. Destas, 204 foram por câncer e 401 por causas não relacionadas à doença. “A análise mostrou que a ingestão de microrganismos vivos na dieta média-alta foi consistentemente associada a um menor risco de mortalidade por todas as causas, quando comparado à baixa ingestão de probióticos em modelos ajustados”, observam os autores. Por outro lado, a depressão foi associada a um maior risco de mortalidade por todas as causas em comparação com indivíduos sem depressão.
Notavelmente, análises conjuntas revelaram que a baixa ingestão de microrganismos probióticos estava associada ao maior risco de mortalidade por todas as causas entre sobreviventes de câncer que também experimentaram depressão. Além disso, o escore PHQ-9 demonstrou um efeito mediador na relação entre a ingestão de microrganismos probióticos na dieta e a mortalidade por todas as causas nessa população. “Nossas descobertas ressaltam, portanto, a importância de adotar hábitos alimentares médio-altos de microrganismos probióticos para o fortalecimento da microbiota intestinal, além de estar atento a sintomas depressivos”, afirmam.
De acordo com os autores, tais cuidados podem reduzir o risco de mortalidade por câncer. Apesar dos resultados, os pesquisadores destacam que futuros estudos de coorte prospectivos são necessários para explorar e validar ainda mais essa associação. O artigo ‘Joint association of dietary live microbe intake and depression with cancer survivor in US adults: evidence from NHANES’ foi publicado em março de 2025 no BMC Cancer do periódico Springer Nature.

