O eixo intestino-cérebro-microbiota abrange uma comunicação bidirecional entre esses dois órgãos fundamentais à vida. Essa comunicação envolve as vias neural (nervo vago e sistema nervoso entérico), imune (citocinas), endócrina (cortisol) e metabólica (ácidos graxos de cadeia curta). Assim, estudos sugerem que alterações no microbioma intestinal podem afetar as funções cognitivas e psicológicas através deste eixo. Portanto, o uso de probióticos que alteram potencialmente a composição e a função do microbioma intestinal poderia exercer efeitos benéficos na saúde mental humana.
Os autores de um estudo de revisão científica investigaram dados abrangentes de ensaios clínicos realizados de 2014 a 2023 com objetivo de encontrar respostas sobre a conexão intestino-cérebro-microbiota. De acordo com os autores, evidências crescentes sugerem que o microbioma intestinal e o eixo microbiota-intestino-cérebro desempenham um papel crucial na modulação de distúrbios psiquiátricos.
Evidências
Segundo os estudos avaliados, as citocinas produzidas pelo intestino podem atingir o cérebro através da corrente sanguínea. “Embora seja duvidoso que cruzem a barreira hematoencefálica (BH) em condições fisiológicas normais, há evidências crescentes de que as citocinas podem afetar partes do cérebro onde a BH é inadequada, como o hipotálamo”, afirmam os autores. Por exemplo, as citocinas interleucina-1 (IL-1) e interleucina-6 (IL-6) desencadeiam a liberação de cortisol ativando o eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal (HPA).
Além disso, a microbiota intestinal é a principal fonte de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), que modulam a saúde e o comportamento do cérebro através do sistema imunológico. “Os AGCC têm um papel anti-inflamatório e de saúde mental benéfico, induzindo a diferenciação de células T, controlando a produção de citocinas inflamatórias e influenciando a produção de serotonina e outros neurotransmissores”, acentuam os autores.
Ademais, o microbioma intestinal é capaz de metabolizar o glutamato para produzir certos metabólitos benéficos, como GABA e serotonina. “Acredita-se que essas moléculas possam reduzir os estados ansiosos e depressivos”, sugerem os autores. Apesar de não serem capazes de atravessar a barreira hematoencefálica, essas moléculas podem passar pela camada da mucosa intestinal e ter um efeito indireto na função cerebral através do sistema nervoso entérico.
Probióticos
Evidências sugerem que os probióticos podem ajudar pacientes com condições como síndrome do intestino irritável e exaustão persistente a se sentirem emocionalmente melhor e viverem com menos estresse. Ao mesmo tempo, certos elementos da função e do comportamento do cérebro, particularmente aqueles que dependem do nervo vago, podem ser alterados por cepas probióticas.
“Os mecanismos de ação dos probióticos são diversos, heterogêneos e específicos da cepa”, afirmam os autores. Esses efeitos benéficos têm sido amplamente atribuídos à modificação da microbiota intestinal, melhorando o funcionamento das populações microbianas e, assim, limitando os patógenos. Além disso, descobriu-se que os probióticos imunomodulam o organismo e promovem o crescimento e a diferenciação de células epiteliais.
Desta forma, reforçam a barreira intestinal e criam substâncias antimicrobianas ou produtos metabólicos que inibem o crescimento de outras bactérias potencialmente prejudiciais. “Ao mesmo tempo, lutam por receptores e pontos de ligação na mucosa intestinal, preservando a harmonia do microbioma intestinal”, acentuam.
Benefícios
O efeito dos probióticos na ansiedade e na depressão está sendo amplamente investigado. De acordo com os autores, ensaios clínicos em humanos mostraram que as terapias probióticas e prebióticas têm efeitos benéficos na saúde mental. “Por exemplo, a combinação probiótica de Lactobacillus helveticus e Bifidobacterium longum, quando administrada a voluntários humanos saudáveis por um mês, demonstrou reduzir o sofrimento psicológico”, informam os autores.
“Além disso, os participantes em um estado saudável que consumiram uma bebida láctea contendo probióticos diariamente apresentaram um aumento considerável no humor após três semanas, quando comparados a um placebo”, acrescentam. Dado o potencial dos probióticos de oferecer novas opções de tratamento personalizadas para transtornos de humor, os autores da revisão científica sugerem que sejam realizadas pesquisas adicionais e mais direcionadas em populações psiquiátricas.
“O objetivo é abordar as preocupações sobre os mecanismos exatos dos probióticos, dosagem, tempo de tratamento e possíveis diferenças nos resultados, dependendo da gravidade da ansiedade e depressão”, detalham. O artigo ‘Probiotics effects in the treatment of anxiety and depression: a comprehensive review of 2014-2023 clinical trials’ foi publicado em 2024 na revista Microorganisms.

