As infecções do trato respiratório superior (URTIs, na sigla em inglês) são altamente prevalentes em crianças, representando aproximadamente 90% do total de infecções respiratórias em todo o mundo. Dados mostram que é comum que uma criança tenha de 5 a 8 URTIs por ano, especialmente nos primeiros cinco anos de vida. Como não há um tratamento baseado em evidências para URTIs, alguns pesquisadores investigam o potencial de probióticos como tratamento adjuvante.
Apesar das hipóteses de benefícios, as evidências do uso de probióticos em crianças ainda são limitadas. Por isso, um grupo de pesquisadores italianos decidiu desenvolver um estudo para avaliar a eficácia de uma mistura probiótica na redução da febre entre crianças com URTIs. A mistura continha Bifidobacterium breve M-16V, Bifidobacterium lactis HN019 e Lactobacillus rhamnosus HN001.
“A febre é uma característica comum nas infecções do trato respiratório superior, com um impacto substancial no bem-estar da criança, bem como nas atividades físicas e escolares”, descrevem. Além disso, é uma fonte potencial de preocupação tanto para médicos quanto para cuidadores e está associada ao aumento e, às vezes, uso inadequado de antibióticos.
Outros sintomas das infecções do trato respiratório superior incluem congestão e secreção nasal, dor de garganta, vermelhidão ou drenagem, tosse, rouquidão, irritabilidade, diminuição do apetite e distúrbio do sono. De acordo com os autores, o tratamento geralmente é baseado em uso de antipiréticos para diminuir transitoriamente a temperatura corporal, mas sem efeito na duração geral da febre. “Os antibióticos, por sua vez, são eficazes apenas em um número limitado de casos”, afirmam.
O estudo
O ensaio clínico randomizado foi conduzido entre novembro de 2021 e junho de 2023. Os pesquisadores elegeram pacientes entre 28 dias e 4 anos de idade com febre (≥38,5°C) e URTIs, atendidos no Departamento de Emergência Pediátrica da Policlínica Ca’ Granda Ospedale Maggiore em Milão, na Itália. “A randomização foi gerada por computador e os participantes foram atribuídos ao grupo de intervenção (probióticos) ou controle (placebo)”, relatam.
O grupo probiótico recebeu uma dose única diária da mistura probiótica de 0,5ml por 14 dias. O grupo placebo recebeu uma dose única diária de placebo de 0,5ml, pelo mesmo período. Dos 128 pacientes inscritos, 65 (51%) foram aleatoriamente designados para receber placebo e 63 (49%) para receber probióticos.
Resultados
O desfecho primário foi a duração da febre, definida como o número de dias entre o primeiro e os últimos dias com febre, conforme relatado pelos cuidadores. “Além disso, analisamos a duração da febre a partir do dia da inscrição, calculada como o número de dias entre o último dia de febre relatado e o dia da inscrição”, contam os autores.
Os desfechos secundários foram a incidência de diarreia em pacientes prescritos de antibióticos e o número de pacientes prescritos de antibióticos durante as visitas de acompanhamento após a alta do pronto-socorro. Ademais, a segurança e a tolerabilidade da mistura probiótica também foram avaliadas com base nos efeitos adversos relatados.
“Neste ensaio clínico randomizado, a administração de uma mistura probiótica reduziu a duração da febre em dois dias em comparação com o placebo, sem preocupações de segurança significativas”, afirmam os autores. Além disso, poucos eventos adversos leves foram relatados e não diferiram significativamente entre os grupos, incluindo constipação e dor abdominal.
Desta forma, os pesquisadores acreditam que a mistura probiótica em investigação pode ser um adjuvante eficaz para encurtar a duração da febre em crianças com URTIs. O artigo ‘Probiotics and fever duration in children with upper respiratory tract infections: a randomized clinical trial’ foi publicado na JAMA Network Open em 2025 – doi: 10.1001/jamanetworkopen.2025.0669.

