Relação da microbiota com a saúde mental

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Microbioma intestinal e a relação com a saúde mental

Escrito por: Fernanda Ortiz

Recentemente, um artigo de revisão desenvolvido por pesquisadores brasileiros apresentou uma análise abrangente sobre a relação entre a microbiota intestinal e a saúde mental. Para os autores do artigo ‘A relação entre o microbioma intestinal e transtornos neuropsiquiátricos: Uma análise multidisciplinar’, a complexa interação entre a microbiota intestinal e a saúde mental é um campo de estudo em constante expansão, que exige uma abordagem multidisciplinar envolvendo psicólogos, nutricionistas e médicos, para ser plenamente compreendida e abordada de maneira eficaz.

No artigo, os autores também mostram as implicações clínicas, alimentares e terapêuticas relevantes para a condução e o desenvolvimento de intervenções personalizadas e eficazes, que visam tratar sintomas e promover o bem-estar individual. “Essa pesquisa busca preencher uma lacuna no conhecimento atual, fornecendo insights valiosos para profissionais de saúde e contribuindo para o desenvolvimento de abordagens terapêuticas inovadoras”, afirmam.

Os pesquisadores destacam que, além da influência sobre o eixo intestino-cérebro, a microbiota intestinal exerce um papel relevante na regulação do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), cuja integridade é essencial para prevenir transtornos de humor, como ansiedade e depressão. “Os estudos científicos confirmam que a microbiota também é um mediador significativo do sistema imunológico, estabelecendo um elo entre a disfunção imunológica e os transtornos mentais, como depressão e esquizofrenia”, relatam. Além disso, contribui para a síntese de neurotransmissores fundamentais, como serotonina, noradrenalina e dopamina, conhecidos como hormônios do bem-estar e da felicidade.

Dessa forma, a microbiota intestinal é considerada fundamental para a preservação da saúde mental, uma vez que exerce papel na regulação das funções cerebrais e na modulação de comportamentos e processos psicológicos que impactam diretamente o humor e a cognição. “Por outro lado, desequilíbrios em sua composição têm sido correlacionados com um maior risco para transtornos do neurodesenvolvimento, como o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, e condições neurodegenerativas, a exemplo da doença de Alzheimer”, descrevem.

Influência

Fatores genéticos, estado de saúde, uso de antibióticos e hábitos alimentares são apontados pelos autores como elementos que podem influenciar a composição da microbiota intestinal. “Indivíduos que enfrentam ansiedade, estresse e depressão exibem alterações nos filos bacterianos da microbiota intestinal, com menor diversidade microbiana e predominância de microrganismos que não oferecem benefícios”, destacam os autores. Assim sendo, intervenções nutricionais com o consumo de probióticos e prebióticos têm demonstrado eficácia na redução de comportamentos relacionados ao estresse e à ansiedade, bem como na melhoria do humor. Isso ocorre em virtude do incremento de bactérias intestinais benéficas, demonstrando a relação da microbiota com a saúde mental.

Abordagem multidisciplinar

De acordo com os autores, a interseção entre o microbioma intestinal e a saúde mental oferece uma nova perspectiva na compreensão e no tratamento dessas condições. Portanto, a abordagem multidisciplinar é fundamental para desvendar a complexidade dessas interações e promover intervenções clínicas mais eficazes. “A contribuição dos psicólogos, por exemplo, é fundamental na avaliação e mediação dos aspectos comportamentais, fornecendo dados essenciais para a otimização do tratamento”, acentuam.

Já os nutricionistas desempenham um papel decisivo na avaliação e prescrição de dietas personalizadas que melhorem a saúde intestinal e, por conseguinte, a saúde mental. “Através da colaboração estreita com psicólogos e médicos, os nutricionistas podem desenvolver planos de alimentação que levem em consideração as necessidades individuais dos pacientes, maximizando os benefícios terapêuticos”, comentam os autores.

A integração dos médicos também é considerada crucial, especialmente no que diz respeito à avaliação e ao tratamento de condições que possam influenciar tanto a saúde intestinal quanto a mental. “Além disso, os médicos desempenham uma função categórica na interpretação de dados clínicos e na formulação de protocolos de tratamento baseados em evidências científicas, essenciais para a segurança e eficácia das intervenções propostas”, enfatizam.

Os autores concluem que essa colaboração, aliada à análise integrada de exames clínicos e microbiológicos, promoverá um novo olhar para a prática clínica com uma abordagem completa, personalizada e eficaz. “Essa compreensão abrangente permite uma intervenção mais precisa, assim como facilita a identificação de correlações entre fatores biológicos, psicológicos e comportamentais que podem ser indispensáveis para o sucesso dos tratamentos”, finalizam. O artigo foi publicado em 2023 no livro Ciência Médica – Descobertas Científicas para uma Saúde Transformadora.

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