Originado nas células da retina, o retinoblastoma é um tumor maligno intraocular que afeta bebês e crianças de até cinco anos de idade. Apesar de raro, estimativas do Ministério da Saúde apontam uma ocorrência de 200 a 400 novos casos diagnosticados por ano no Brasil. Ao acometer um ou os dois olhos, a neoplasia é responsável por 4% de todos os cânceres pediátricos nessa faixa etária. A doença, que tem causa esporádica ou hereditária, pode ser debilitante e potencialmente fatal. Entretanto, com o diagnóstico precoce e a condução terapêutica adequada, as chances de cura são muito promissoras em mais de 90% dos casos.
De acordo com o médico oftalmologista e especialista em oncologia ocular Hermano de Assis Filho, do Vera Cruz Hospital, em Campinas (SP), o retinoblastoma é um tumor maligno intraocular que se origina nas células da retina. Essa camada fina localizada no interior do olho é a responsável pela captação de luz. A doença ocorre pela inativação das duas cópias do gene RB1 – um gene supressor de tumor que regula o crescimento normal das células. “Quando esses genes perdem sua função, impactam o controle do ciclo celular desencadeando a proliferação desordenada das células e a formação do tumor”, descreve.
O retinoblastoma é unilateral (afeta um olho) em aproximadamente 75% dos casos. Destes, 85% são classificados como esporádicos/espontâneos em decorrência de uma mutação somática, e os demais são casos hereditários (mutação germinativa). Já na apresentação bilateral, que afeta os dois olhos, a condição é exclusivamente hereditária. “O retinoblastoma proveniente de mutação somática é diagnosticado entre os dois e três anos de idade. Na forma hereditária ocorre, geralmente, no primeiro ano de vida”, afirma o médico.
Suspeitas
O sinal mais característico do retinoblastoma é a leucocoria – quando a luz refletida no olho doente apresenta coloração esbranquiçada. No Brasil, essa condição é popularmente conhecida como ‘olho de gato’ e é facilmente visível em fotos tiradas com flash. Outros sintomas incluem problemas de movimentação ou desvio dos olhos (estrabismo), olho vermelho e dolorido, alteração no tamanho do globo ocular e ambliopia (visão reduzida, mesmo após correção visual com óculos ou lentes de contacto).
Além disso, a doença pode causar perda de apetite e mudanças no comportamento da criança sem causa explicável. “Ao sinal desses sintomas, especialmente a leucocoria, a criança deve ser levada ao oftalmologista porque, mesmo que não seja um retinoblastoma, pode ser um indicativo de perda da visão”, alerta o especialista
Diagnóstico precoce
Por ser uma doença debilitante e potencialmente fatal, quanto antes o diagnóstico for realizado maiores serão as chances de cura. O médico destaca que o teste do olhinho deve ser feito logo após o nascimento do bebê e, periodicamente, até os cinco anos de idade – faixa etária mais atingida pela doença. “O teste é simples e pode detectar qualquer alteração visual”, assegura. Além do retinoblastoma, o teste do olhinho pode identificar outras doenças, a exemplo de catarata e glaucoma congênito, cujo diagnóstico precoce possibilita o tratamento no tempo adequado. O exame é oferecido de forma integral e gratuita no Sistema Único de Saúde (SUS).
Caso seja observada alguma alteração, a criança deve realizar o exame de fundo de olho, indicado para rastreamento sem sintomas. Já a ressonância nuclear magnética de crânio e órbitas é prescrita para avaliar a extensão do tumor e o comprometimento com outras estruturas. Apesar de pouco usado no diagnóstico da doença, o teste genético tem papel importante para identificar casos específicos – como diferenciação entre as formas hereditárias menos comuns. Além disso, serve para auxiliar no aconselhamento genético dos pacientes e familiares.
Chances de cura
Individualizado, o tratamento deve levar em consideração fatores importantes. Dentre eles estão se o câncer está em um olho ou ambos, o grau de comprometimento da visão e a presença de metástases, assim como idade e estado clínico do paciente. No geral, o tratamento combina terapias oftalmológicas como laserterapia e crioterapia com a quimioterapia para eliminar o tumor.
“Os tratamentos locais, como crioterapia, laser sobre o tumor e radioterapia localizada (braquiterapia) são utilizados para tumores selecionados”, explica. Além da quimioterapia sistêmica (endovenosa), técnicas como aplicação de medicação no espaço intravítreo e diretamente no interior da artéria oftálmica apresentam boa resposta.
O oftalmologista informa, ainda, que a mortalidade e as sequelas do retinoblastoma estão relacionadas ao acesso deficitário à saúde. Em locais onde a criança recebe tratamento precoce e adequado às suas condições, a cegueira total é incomum. “Com entendimento atual sobre a doença e seus métodos de tratamento direcionados, o retinoblastoma tornou-se um dos cânceres pediátricos com maior taxa de cura, salvando vidas, preservando a visão e permitindo uma vida sem dificuldades”, finaliza.