Transplante fecal na doença de Parkinson

• Microbiota

Transplante fecal em pacientes com doença de Parkinson

Escrito por: Fernanda Ortiz

Dados crescentes da literatura científica apontam que a disbiose na microbiota intestinal promove interações microbianas-hospedeiro alteradas que podem agravar a progressão de doenças neurológicas, por exemplo, a doença de Parkinson (DP). Diante dessas descobertas, cientistas investigam se o transplante de microbiota fecal (FMT na sigla em inglês) pode ser uma alternativa, porque possibilita a reconstrução do microambiente intestinal. Assim, o transplante fecal impactaria positivamente na melhora dos sintomas gastrointestinais em pacientes com DP.

Para testar a hipótese, pesquisadores chineses desenvolveram um estudo clínico com cápsulas de microbiota fecal liofilizadas. O objetivo do experimento era estudar a funcionalidade e a eficácia desse método clínico em pacientes diagnosticados com doença de Parkinson. De acordo com os autores, as cápsulas liofilizadas constituem uma preparação aceitável e acessível, que permite aos pacientes realizarem o transplante em ambiente clínico ou domiciliar. Assim, a proposta é diferente das vias endoscópicas convencionais, como a colonoscopia, que requerem endoscopistas experientes ou equipamento radiológico para o procedimento.

O ensaio randomizado e controlado por placebo envolveu 54 participantes de 30 a 85 anos de idade, todos com diagnóstico de doença de Parkinson leve a moderada – 59,26% do sexo masculino. Os pacientes foram divididos aleatoriamente em grupos FMT e placebo (27 pacientes cada). “Selecionamos quatro doadores de fezes de acordo com triagem rigorosa baseada em critérios previamente relatados. As fezes destes quatro doadores foram utilizadas para este ensaio e para outros usos clínicos ao mesmo tempo”, descrevem os autores. Para o estudo, cada doador forneceu fezes para a fabricação de cápsulas de FMT para cerca de sete pacientes.

Assim, 16 cápsulas de FMT ou placebo foram ingeridas por via oral pelos participantes de uma só vez, pela manhã e com o estômago vazio, uma vez por semana durante três semanas consecutivas. “A aparência das cápsulas de FMT e de placebo era indistinguível, e todas as cápsulas foram levadas no hospital para garantir que os participantes desconheciam o conteúdo”, detalham os autores. Os indivíduos de ambos os grupos mantiveram a medicação original para DP antes da inscrição, assim como o regime durante todo o ensaio. Além disso, receberam orientação médica para manter uma alimentação saudável e um horário de descanso.

Resultados positivos 

Os pacientes com tratamento com FMT apresentaram melhora significativa nos sintomas autonômicos relacionados à DP em comparação com o grupo placebo no final do estudo. Além disso, o FMT melhorou os distúrbios gastrointestinais e provocou um aumento acentuado na complexidade do sistema microecológico dos pacientes. Ademais, a intervenção oral melhorou significativamente o efeito dos medicamentos convencionais nestes sintomas associados à doença. Com isso, a qualidade de vida melhorou significativamente para a maioria dos participantes.

“Este estudo demonstrou que o FMT por administração oral é clinicamente viável e tem potencial para melhorar a eficácia dos medicamentos atuais nos sintomas clínicos de pacientes com DP”, reforçam os cientistas. O estudo foi realizado no Departamento de Neurologia do Army Medical University Southwest Hospital, na China, entre fevereiro e dezembro de 2019. O artigo ‘Efficacy of fecal microbiota transplantation in patients with Parkinson’s disease: clinical trial results from a randomized, placebo-controlled design foi publicado na revista Gut Microbes em 2023 – doi.org/10.1080/19490976.2023.2284247.

Comprometimento 

A doença de Parkinson é uma patologia neurodegenerativa progressiva que atinge principalmente idosos. Com incidência global de quase 14 indivíduos por 100 mil pessoas, é um distúrbio motor grave com sintomas clínicos como rigidez, bradicinesia, tremor e comprometimento do equilíbrio. Além disso, as disfunções não motoras, como depressão, danos cognitivos, distúrbios do sono e disfunções gastrointestinais são comuns nesses pacientes, impactando negativamente o bem-estar e a qualidade de vida.

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