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Vigilância, controle e atenção são fundamentais

Escrito por: Elessandra Asevedo

A falta de ações integradas de vigilância da doença, de controle e atenção no nível básico da saúde, bem como a distância geográfica de pacientes dos equipamentos de saúde, prejudica o diagnóstico da doença de Chagas na fase aguda – período em que as chances de cura são maiores. Além disso, a partir da identificação de um caso da doença crônica é recomendada a realização da investigação sorológica em familiares, como pais, irmãos e filhos, e outras pessoas que convivem ou conviveram com o paciente no mesmo contexto epidemiológico. Esse rastreamento ajuda a identificar a enfermidade em indivíduos assintomáticos e iniciar o tratamento medicamentoso. Até hoje, os exames laboratoriais de pesquisa direta que identificam o parasito no sangue são os mais utilizados para o diagnóstico.

“Também há a sorologia, só que demora mais tempo para positivar, e a técnica de PCR, ou seja, Reação em Cadeia da Polimerase, que é mais sofisticada e de difícil acesso”, pontua a professora doutora Marta Heloísa Lopes, associada do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Além disso, existem os métodos parasitológicos indiretos, como o xenodiagnóstico – que cria o barbeiro não infectado e o alimenta com o sangue do paciente, monitorando as fezes do inseto e verificando se há parasito. Em caso positivo, significa que o paciente tem a doença. Outro método indireto é o hemocultivo, que verifica o crescimento do parasito a partir de uma amostra de sangue do paciente em laboratório. No entanto, na fase crônica da doença de Chagas o diagnóstico parasitológico direto e indireto torna-se comprometido em virtude da ausência de parasitos no sangue. Por isso, o diagnóstico nesta etapa é essencialmente sorológico devido à sua elevada sensibilidade e especificidade.

As técnicas mais utilizadas são a Hemaglutinação Indireta (HAI), a Imunofluorescência Indireta (IFI) e o ELISA (Enzyme Linked Immunosorbent Assay). Nesta fase, a suspeita diagnóstica também é baseada nos achados clínicos e na história epidemiológica, por exemplo, se o indivíduo residiu em área ou casa com presença de vetor transmissor, se realizou transfusão de sangue ou de hemocomponentes antes de 1992, ou se tem familiares ou pessoas do convívio habitual com o diagnóstico, em especial mãe e irmão. “As manifestações clínicas são características. É preciso investigar quando há um bloqueio do ramo direito do coração, se o indivíduo frequentou uma região endêmica, quando possui um megaesôfago ou megacólon e quadros de constipação intestinal importante, como ficar de duas a três semanas sem evacuar”, orienta a professora Marta Heloísa Lopes.

Boas perspectivas

A OMS lançou, em 2021, um novo roteiro que define os desafios para o controle e a eliminação das doenças tropicais negligenciadas até 2030, que incluem leishmaniose, doença de Chagas, tripanossomíase humana africana e esquistossomose. No entanto, para a descoberta de novos medicamentos com tecnologia de ponta e orientados para a inovação serão necessárias parcerias público-privadas, catalisadas principalmente por organizações sem fins lucrativos. Assim, a indústria farmacêutica e o meio ­acadêmico poderão interagir em um ambiente com recursos humanos altamente qualificados e infraestruturas de vanguarda. “Estes esforços integrariam a biologia dos parasitos e a química medicinal para promover a descoberta de medicamentos nesta área-chave da saúde global, além de abrir espaço para estratégias modernas combinando química medicinal, ensaios fenotípicos e ­moleculares, otimização multiparâmetros, biologia estru­tu­ral e abordagens ômicas”, detalha o pesqui­sador Josué de Moraes.

Apesar de todas as dificuldades, a expectativa para os próximos anos é que a doença de Chagas seja mais conhecida pelos médicos da atenção primária e pela população. A professora Marta Heloísa Lopes lembra que existem milhares de pessoas que se infectaram e seguem sem diagnóstico. Por isso, é preciso que os médicos desconfiem e saibam identificar os sintomas. “Investigue, peça sorologia, reconheça sinais como a dificuldade para engolir e as alterações eletro­cardio­gráficas que possam contribuir para o diagnóstico e para melhorar o prognóstico. Se mantivermos tudo o que conquistamos até agora, como as melhorias nas condições de habitação e a educação da população sobre prevenção, os próximos anos podem ser otimistas”, acentua. Também há uma perspectiva positiva por parte da infectologista Érika Alessandra Pellison Nunes da Costa, uma vez que os países mais desenvolvidos passaram a ter foco na doença depois que começaram a registrar casos – Estados Unidos, Europa e Ásia passaram a desenvolver pesquisas na área. Atualmente, há grupos engajados no tema no Estado do Texas (EUA), na Espanha e em Portugal. A perspectiva é que, em alguns anos, haja uma maior evolução em diagnóstico e tratamento.

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