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Lipedema atrapalha a qualidade de vida

Escrito por: Elessandra Asevedo

Condição médica caracterizada pelo acúmulo anormal de gordu­ra nos membros superiores e inferiores, o lipedema afeta coxas, pernas, braços e antebraços. Esse distúrbio do tecido adiposo resulta em pernas em formato de coluna com preservação dos pés e braços desproporcionalmente grandes, podendo causar dor, sensibilidade ao toque, contusões fáceis e, às vezes, problemas de mobilidade devido ao tamanho e ao peso dos membros afetados. A enfermidade com características hereditárias e genéticas tem uma relação direta com os hormônios femininos, mas ainda não foi descoberto um gene ­único que ‘desperte’ a doença. Embora não exis­tam dados oficiais, estimativas da Associação Brasileira de Lipedema (ABL) sugerem que a condição atinja 12,3% da população feminina brasileira (12 ­milhões de mulheres). A doença atrapalha a qualidade de vida e pode desencadear distúrbios como depressão, obesidade, bulimia, perda de mobilidade e redução da autoestima.

Mesmo incluído na 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID 11) desde janeiro de 2022, o lipedema ainda não faz parte do currículo médico brasileiro nem da grade específica da área vascular. Além disso, tanto a população como os médicos podem confundir o problema com outras enfermidades, como obesidade, dificultando o diagnóstico correto precoce e o início do tratamento – que demanda equipe multidisciplinar e contempla alimentação saudável, atividade física e, em alguns casos, cirurgia. O nome também induz a uma confusão com o linfedema, enfermidade crônica que envolve o acúmulo de líquido nos tecidos e resulta em inchaço unilateral e assimétrico, inclusive nos pés.

Por ter relação direta com os hormônios femininos, o lipedema pode surgir ainda na adolescência ou puberdade, quando a menina começa a ter alterações hormonais – como o aumento do estrogênio. “Além disso, outras mudanças em relação aos níveis de hormônios podem ser gatilhos, como uso de anticoncepcional, tratamento para engravidar, gestação e menopausa”, explica o cirurgião plástico Fábio Kamamoto, diretor do Instituto Lipedema Brasil e idealizador da ONG Movimento Lipedema. Embora raramente ocorra em homens, a condição também pode aparecer associada à doença ­hormonal masculina.

O cirurgião vascular Alexandre Campos Moraes Amato, presidente da ABL, afirma que nem todas as mulheres que desenvolvem a doença vão sofrer com os sintomas, principalmente por causa dos hábitos de vida saudáveis. “No entanto, um outro problema de saúde poderá gerar um gatilho inflamatório. A partir disso, essas mulheres passam a sentir retenção de líquido, dor, cansaço, sensação de peso e fragilidade capilar, desencadeando os sinais típicos da doença”, pontua. Apesar do incômodo que provoca, a gordura presente no subcutâneo do lipedema diminui o risco cardiovascular e as doenças de origem inflamatória. Embora seja considerado o lado bom desse problema de saúde, ainda não há uma explicação para essa proteção.

O diagnóstico inicial é realizado durante anamnese para identificar quando surgiu o primeiro sintoma, se tem relação com alguma alteração hormonal e se há alguma familiar de primeiro grau com lipedema. “Observamos para ver se as pernas são simétricas e se o pé está preservado para eliminar outras enfermi­dades, como o inchaço bilateral que pode ter relação com o rim; pernas e pés inchados que podem ser sinal de insuficiência cardíaca. Podemos optar, ainda, por ultrassom vascular e ressonância magnética para análise da gordura”, orienta o cirurgião vascular Armando Lobato, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV).

Pouco conhecido

O lipedema foi descrito pela primeira vez em 1940, mas segue pouco ­conhecido por profissionais da saúde e população, fazendo com que o diagnóstico seja tardio e que a condição progrida sem controle e resulte no desenvolvimento de comorbidades, bem como dor e angústia ­mental. Outro ponto que preocupa é a falta de cobertura do tratamento cirúrgi­co pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pelos convênios. Além do mês mun­dial de conscientização, em junho, associações e organizações disseminam informa­ções sobre a doença, capacitam profissionais da saúde e educação, e oferecem suporte às mulheres e familiares.

Conexão com TDAH

Um estudo investigou a ­sobreposição de sintomas entre lipedema e Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade ­(TDAH). Os pesquisadores examinaram a prevalência de sintomas de TDAH em mulheres com lipedema e as característi­cas clínicas comuns dessas condições. Os resultados mostraram que havia alta prevalência de sintomas de TDAH na população estudada, sugerindo que as condições podem estar relacionadas. “Este estudo é importante para ajudar os médicos a identificarem melhor as pacientes com lipedema que também podem estar sofrendo com TDAH não diagnosticado. Além disso, poderá ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos que abordem as duas condições simultaneamente”, pontua o cirurgião Alexandre Campos Moraes Amato, um dos autores da pesquisa.

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