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Hanseníase ainda é um desafio

Escrito por: Fernanda Ortiz

Considerada uma das mais ­antigas enfermidades da humanidade e um problema importante de saúde pública, a hanseníase é uma doença crônica, infecciosa e transmissível que afeta principalmente o sistema nervoso periférico – compreendido por nervos e gânglios –, assim como pele e mucosas. Com evolução lenta e progressiva, a enfermidade é curável. Entretanto, sem diagnóstico precoce e tratamento adequado, a doença pode causar lesões e danos neurais irreversíveis, impactando negativamente a saúde física e emocional. De acordo com o recente Boletim Epidemiológico da Hanseníase da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, entre 2013 e 2022 foram diagnosticados 316.182 novos casos no Brasil. Embora existam registros em todas as unidades federativas, as regiões Norte e Centro-Oeste são consideradas as áreas mais endêmicas. Com esse cenário, o País segue ocupando a vice-liderança em incidência no mundo, atrás apenas da Índia.

Conhecida no passado como lepra, denominação que deixou de ser utilizada no Brasil em 1995 com o objetivo de ressignificar socialmente a doença, a hanseníase é causada por Mycobacterium leprae (M. leprae), um bacilo álcool-ácido resistente de incubação e multiplicação lenta. Uma outra espécie associada à ocorrência de hanseníase é M. lepromatosis, mas há ainda poucos casos. “A principal fonte de infecção são indivíduos acometidos pela doença, sem tratamento e com alta carga bacilar, que eliminam o bacilo pelas vias aéreas superiores. A transmissão ocorre por contato direto e é facilitada pelo convívio próximo e duradouro de doentes não tratados com indivíduos suscetíveis”, descreve a pesquisadora Roberta Olmo Pinheiro, chefe do Laboratório de Hanseníase do Instituto Oswaldo Cruz da Fundação ­Oswaldo Cruz (IOC-Fiocruz). Ao se esconder nos nervos periféricos, estima-se que o período de incubação da doença leve em média cinco anos. Entretanto, há relatos de casos em que os sintomas apareceram após um ano do contato suspeito e outros em que a incubação demorou cerca de 20 anos.

Apesar da alta taxa de transmissão, uma parcela significativa dos indivíduos infectados por M. leprae não desenvolvem a doença. Isso ocorre devido à resistência natural contra o bacilo, atribuída a uma resposta imune eficiente e possível influência genética. “Nos demais indivíduos, a doença pode apresentar manifestações clínicas variáveis, a depender da interação entre a micobactéria e o sistema imunológico. Dessa forma, a resposta imune contra o bacilo não apenas define o tipo de doença que o infectado pode ou não desenvolver, mas também se apresenta como causa importante de morbidade quando ocorrem, por exemplo, quadros inflamatórios agudos que podem ser localizados nas lesões ou ser sistêmicos”, explica a pesquisadora da Fiocruz. No desenvolvimento da hanseníase, o M. leprae afeta os nervos periféricos e a pele, podendo posteriormente atingir olhos, mucosa do trato respiratório superior, linfonodos, testículos e órgãos internos – de acordo com o grau de suscetibilidade do hospedeiro e a resposta imune. Os principais nervos periféricos acometidos são os que passam pela face: trigêmeo e facial; pelos braços: radial, ulnar e mediano; e pelas pernas: fibular comum e tibial posterior.

Com neuropatia em graus variados, a hanseníase pode desencadear uma série de sintomas. Por ser uma doença primariamente do sistema nervoso periférico, os sinais e sintomas incluem dor em trajeto dos nervos que passam pelos cotovelos, punhos, atrás dos joelhos e tornozelos; possíveis alterações motoras, sensitivas e autonômicas; diminuição dos pelos e do suor na área acometida; formigamento ou fisgadas, especialmente nas mãos e nos pés; redução de sensibilidade e força muscular na face, nas mãos e nos pés. “Além disso, são observadas manchas cutâneas de coloração branca, avermelhada, acastanhada ou amarronzada, podendo apresentar alteração de sensibilidade na pele (térmica, dolorosa e/ou táctil), assim como nódulos eventualmente avermelhados e dolorosos”, enumera o médico dermatologista e hansenologista Ebert Mota, especialista do Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Tocantins (HDT-UFT). Na ausência de tratamento, em longo prazo a doença pode provocar deformidades e perda funcional dos membros acometidos.

Manifestações clínicas

Para fins terapêuticos, os pacientes com hanseníase são divididos em paucibacilares (PB) – forma mais branda, com poucos bacilos e risco reduzido de transmissão – e multibacilares (MB), com apresentação mais severa, maior presença de bacilos e potencialmente propagadores da doença. Associada à carga de bacilos e ao estágio de acometimento do paciente, a doença pode ser classificada em formas clínicas distintas. O dermatologista Ebert Mota lembra que a hanseníase indeterminada é a forma inicial da doença, surgindo com manifestações discretas e menos perceptíveis. “O paciente apresenta até cinco manchas e contornos mal definidos, sem comprometimento de nervos periféricos e, portanto, não se observam repercussões neurológicas”, descreve. Já a hanseníase tuberculoide ocorre em indivíduos com forte resposta da imunidade celular específica, evoluindo com multiplicação bacilar limitada e não detectável. Esta condição apresenta manchas ou placas mais definidas, embora em número reduzido e comprometimento de apenas um nervo.

De acordo com o dermatologista, as manifestações com maior comprometimento são as multibacilares representadas pela hanseníase dimorfa. Com características imunológicas mistas e lesões cutâneas em diversas áreas, esta forma da doença desencadeia manchas acastanhadas ou violáceas e comprometimento múltiplo e assimétrico dos nervos periféricos, muitas vezes com espessamento, dor e choque ao toque, e associado à redução de força muscular e diminuição da sensibilidade. “Considerada a forma mais disseminada, na hanseníase virchowiana é difícil separar a pele normal da danificada, podendo comprometer nariz, rins e órgãos reprodutivos masculinos, além da ocorrência de neurite e eritema nodoso na pele”, descreve. Geralmente, os pacientes têm um agravamento das queixas neurológicas com relato em maior frequência de dormências, câimbras e formigamentos nas mãos e nos pés. Além disso, costumam apresentar comprometimento difuso da sudorese, às vezes com hiperidrose compensatória em áreas não afetadas, como axilas e couro cabeludo.

 

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