Doença carece de investimento

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Doença carece de investimentos

Escrito por: Fernanda Ortiz

A médica Isabela Maria ­Bernardes Goulart ressalta que o diagnóstico precoce e o tratamento oportuno são dificultados pelo estigma, pela falta de informação sobre a doença e, principalmente, pela qualificação inadequada de profissionais da saúde. “A hanseníase não recebe a devida atenção, mesmo durante a graduação. E isso se reflete na prática clínica, pois esse profissional da saúde não está condicionado a pensar na doença durante o atendimento. Portanto, não é incomum que a hanseníase seja confundida com outras condições dermatológicas, neurológicas e reumatológicas que apresentam sinais e sintomas semelhantes. Também não é raro que o paciente receba o diagnóstico correto tardiamente, já com lesões profundas e incapacidades físicas importantes”, lamenta. Além disso, o acesso da população às informações sobre a doença ocorre de forma desigual nas diferentes regiões do Brasil, o que impossibilita ações de controle coordenadas.

Ainda que o perfil geral do paciente seja o indivíduo morador de áreas endêmicas e com maior vulnerabilidade social, é importante ressaltar que a hanseníase pode acometer pessoas em todo o território nacional, de ambos os gêneros, idades e classes sociais. “Portanto, a informação por meio de campanhas de conscientização deve ser veiculada de forma igualitária para a população, seja nas áreas endêmicas ou com baixa incidência de casos”, enfatiza. Para a hansenologista, um dos fatores mais relevantes da não erradicação e controle da doença é o silenciamento sobre as políticas públicas com relação à hanseníase. Apesar de existirem na teoria, na prática há uma carência de investimentos tanto na formação de profissionais e das equipes de rastreio quanto nas campanhas em âmbito nacional, principalmente na área de pesquisas e desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas.

Avanços

Segundo a médica Isabela Goulart, apesar de negligenciada houve alguns avanços no diagnóstico da hanseníase com a incorporação de exames sorológicos e moleculares no âmbito do SUS, visando rastrear a população infectada e diagnosticar mais precocemente a doença. Por meio da Portaria SAES/MS nº 189, de 09 de junho de 2022 foram incorporados o teste de biologia molecular de reação em cadeia polimerase em tempo real (qPCR) para a detecção qualitativa de DNA de Mycobacterium leprae para diagnóstico de hanseníase em amostras de biopsia de pele ou de nervos; o teste qualitativo in vitro, por amplificação de DNA e hibridização reversa em fita de nitrocelulose para detecção de Mycobacterium leprae resistente a rifampicina, dapsona ou ofloxacino em pacientes acometidos por hanseníase e com suspeita de resistência a antimicrobianos; e o teste rápido imunocromatográfico para determinação qualitativa de anticorpos IgM anti-Mycobacterium leprae para diagnóstico complementar de hanseníase. “No momento, a oferta desses exames nos vários pontos de atenção do SUS ainda não é uma realidade, mas, com certeza, a aplicação em larga escala desses exames elevará o controle da doença a um novo patamar, com possibilidade real de eliminação do estigma que acompanhou a hanseníase por séculos”, acredita.

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