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| L. Shirota

Alívio nos sintomas gastrointestinais em transtornos depressivos

Escrito por: Adenilde Bringel

Evidências crescentes sugerem que a comunidade de microrganismos que habita o trato gastrointestinal pode estar associada a transtornos depressivos e ansiedade, entre outros problemas neuropsiquiátricos que atingem boa parte da população do planeta (leia mais em Microbiota & Probióticos). A depressão é caracterizada por humor baixo persistente que envolve falta de motivação, perda de prazer e disfunção física, e fatores como estresse, hábitos alimentares pouco saudáveis e inatividade física têm sido implicados na etiologia da doença. Estatísticas indicam que quase todos os casos de depressão são acompanhados por sintomas gastrointestinais, como diarreia e constipação, o que sugere que o eixo intestino-cérebro-microbiota pode estar envolvido no desenvolvimento e na progressão do transtorno depressivo.

Experimentos científicos já demonstraram que indivíduos com transtorno depressivo grave têm uma composição de microbiota diferente em comparação aos controles, apresentando alterações em filos como Bacteroidetes, Proteobacteria e Firmicutes, e sugerem que a prevalência desses filos pode ser importante para a saúde mental devido à produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), fundamentais para manter a integridade da barreira intestinal e a resposta imunológica. Em uma pesquisa com 18.571 participantes, por exemplo, os indivíduos que apresentavam desconforto gastrointestinal tinham maior prevalência de depressão comparados à população em geral (7,5% x 2,9%), e a prevalência de depressão na população com pelo menos dois problemas de desconforto gastrointestinal chegava a 13,4%. Uma metanálise de 35 estudos que envolviam 7.179 pacientes com síndrome do intestino irritável do tipo constipação e 69.989 indivíduos com constipação idiopática crônica também relatou que a incidência de depressão em ambos os grupos foi de 12,5% a 69,2% e 14,6% a 29,2%, respectivamente.

Para investigar o efeito do Lacticaseibacillus paracasei cepa Shirota (LcS) – anteriormente Lactobacillus casei Shirota – na constipação de pacientes com depressão de etiologia específica, microbiota intestinal e regimes depressivos, pesquisadores chineses desenvolveram um estudo clínico com 69 participantes. Os indivíduos consumiram 100ml de uma bebida contendo 1010 UFC/ml de LcS ou placebo diariamente, por nove semanas. “Após a ingestão da bebida por esse período, não observamos diferenças significativas nos escores totais de sintomas de constipação dos pacientes no grupo LcS quando comparados ao grupo placebo. No entanto, os sintomas de lacrimejamento retal ou sangramento após uma evacuação, assim como a subescala de sintomas de fezes, foram mais aliviados no grupo LcS”, afirmam os autores.

As análises de composição da microbiota dos participantes indicaram que a intervenção com LcS aumentou o nível das bactérias benéficas Adlercreutzia, Megasphaera e Veillonella e diminuiu os níveis bacterianos relacionados a doenças mentais, como Rikenellaceae_RC9_gut_group, Sutterella e Oscillibacter. A Veillonella usa lactato e o metaboliza em ácidos mais fracos, como acetato e propionato. Rikenellaceae está associada à esquizofrenia e Sutterella é um microrganismo comensal amplamente prevalente, com uma leve capacidade pró-inflamatória no trato gastrointestinal humano e associado a várias condições, como diabetes tipo 1 e doença inflamatória intestinal. Além disso, é um importante componente da microbiota em crianças com autismo e distúrbios gastrointestinais. A cepa do tipo Oscillibacter produz ácido valérico como seu principal produto metabólico final, um homólogo do neurotransmissor ácido gama-aminobutírico (GABA), e mostra uma associação significativa com a depressão.

Exames de sangue indicaram que os níveis de interleucina (IL)-1β, IL-6 e fator de necrose tumoral-α (TNF-α) diminuíram significativamente nos grupos placebo e LcS e, em particular, os níveis de IL-6 foram significativamente menores no grupo LcS após o período de ingestão. O estudo detalha que as citocinas pró-inflamatórias IL-1β, IL-6 e TNF-α foram previamente relatadas como elevadas em pacientes com depressão e parecem desempenhar papéis significativos na patogênese da depressão maior. Essas citocinas também influenciaram a integridade da barreira intestinal e a atividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e o metabolismo do triptofano na via das quinureninas. A IL-6 liberada na periferia e/ou no sistema nervoso central exerceu efeitos na resposta comportamental ao lipopolissacarídeo (LPS) e à IL-1 que se desenvolveu em resposta à inflamação sistêmica. Segundo os autores, as reduções nas citocinas pró-inflamatórias podem ser consistentes com as reduções na bactéria pró-inflamatória Sutterella.

Para os cientistas, os resultados indicam que o consumo diário de LcS por nove semanas pareceu aliviar a constipação, melhorar os sintomas potencialmente depressivos em pacientes com o transtorno e diminuir significativamente os níveis de IL-6. Além disso, a suplementação de LcS também pareceu regular a microbiota intestinal relacionada à doença mental. “Até onde sabemos, este é o primeiro estudo duplo-cego probiótico para avaliar os sintomas de constipação em pacientes com depressão”, acentuam os autores. O artigo ‘Effects of fermented milk containing Lacticaseibacillus paracasei strain Shirota on constipation in patients with depression: a randomized, double-blind, placebo-controlled trial’ foi publicado no periódico Nutrients em 2021 (13(7): 2238).

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